O CONTO CONTEMPORÂNEO NA LITERATURA BRASILEIRA

SIMPÓSIO - ST65

COORDENADORES

GISLEI MARTINS DE SOUZA OLIVEIRA (IFMT - Campus Fronteira Oeste)
Claudia Vanessa Bergamini (UFAC)
Vanderluce Moreira Machado Oliveira (IFMT)

RESUMO

O simpósio agregará comunicações que proponham uma interpretação do conto na literatura contemporânea brasileira, levando em consideração as mais diversas projeções e estratégias que revelam o aperfeiçoamento da escrita do gênero. Desde os primeiros estudos sobre a terminologia do conto, conforme orienta Nádia Battella Gotlib (1990), observa-se a tendência de diferenciá-lo do romance, o qual teria uma forma mais longa e tradicional, sendo que apenas no século XIX surge a acepção short story, a fim de designar uma narrativa curta com características específicas e independentes. A diversidade e dinâmica de procedimentos estéticos utilizados na construção do conto têm relações estreitas quanto ao funcionamento da estrutura romanesca e, assim, torna-se salutar o estudo dos efeitos produzidos por cada gênero em suas singularidades. A autora ainda faz um percurso diacrônico que esboça o debate acerca da teoria do conto, seguindo uma linhagem variada de autores, a saber: Edgar Allan Poe, Júlio Cortázar, Horacio Quiroga, passando também por Charles Perrault, André Jolles, Boris Eikhenbaum, Olivier Henry, bem como Mário de Andrade, Machado de Assis, dentre outros. Sendo assim, é possível observar os vários empreendimentos teóricos e literários os quais permitiram que essa forma breve alçasse um patamar privilegiado no rol da literatura ocidental. Ricardo Piglia (1990), por exemplo, traz luz a autores como Franz Kafka e Jorge Luis Borges, seguindo o argumento de que o conto moderno constitui uma narrativa composta por duas histórias, uma superficial e outra secreta, que encaminham o desfecho para uma revelação. Paradoxalmente, configura-se uma tensão entre as duas histórias, fazendo que dessa lógica narrativa antagônica aflore correlações surpreendentes: “Há algo no final que estava na origem, e a arte de narrar consiste em postergá-lo, mantê-lo em segredo, até revelá-lo quando ninguém o espera.” (PIGLIA, 1990, p.106). Percebe-se que o conto deixa de ser algo engessado a um paradigma conceitual quando é apreendido em seus diversos efeitos de sentido que sugerem, como afirma Piglia, sua natureza fragmentária e elíptica. Interessa ainda ressaltar a denúncia feita por Júlio Cortázar (2006, p. 149) quanto à primazia do romance: “De qualquer modo, enquanto os críticos continuam acumulando teorias e mantendo exasperadas polêmicas acerca do romance, quase ninguém se interessa pela problemática do conto.” Outro elemento entra em cena quanto à abordagem do conto e corresponde ao tempo da leitura em relação à demanda de cada gênero. O romance, devido a sua extensão, é lido com interrupções e pausas que estão em conformidade com o ritmo imposto pela sua composição, enquanto o conto, em decorrência de sua brevidade, pode ser apreciado em uma só “assentada”, como diria Poe (apud GOTLIB, 1990). De modo analógico, o intelectual argentino relaciona o romance com o cinema na tentativa de mostrar que ambos têm uma “ordem aberta” e, ainda, o conto com a fotografia, tendo em vista o foco limitado à perspectiva estética do fotógrafo, ou melhor, a um fragmento da realidade. Ao capturar a “fugacidade na permanência”, cabe ao conto apresentar um enredo capaz de prender a atenção do leitor e de convencê-lo a persistir com a leitura. Quanto à projeção do conto contemporâneo na literatura brasileira, Karl Erik Schøllhammer (2004) destaca a fragmentação e a procura por novas formas de experiência narrativa como recursos estéticos que transgridem ao mesmo tempo que dialogam com a escrita tradicional do gênero. Desse modo, o conto adquire novas roupagens quando introduz uma maior dinâmica no processo de criação literária. O autor delineia que a literatura contemporânea apenas representa o mundo atual por meio de uma inadequação e/ou “[...] uma estranheza histórica que a faz perceber as zonas marginais e obscuras do presente, que se afastam de sua lógica.” (2011, p. 10). Escritores, como Luiz Ruffato e Marcelino Freire, exemplificam a nova vertente para se refletir sobre a produção de narrativas curtas no Brasil, pois, segundo Schøllhammer, retratam a realidade pelo ponto de vista dos que estão às margens do sistema social. Além disso, outros traços como a metaficção e a escrita de si demonstram que a realidade trazida pela literatura atual não se trata de um realismo tradicional e ingênuo. Nesse cenário múltiplo pelo qual o conto contemporâneo circula, a própria definição do que é contemporâneo é – quase – impalpável, remete ao que há de mais vanguardista, àquilo que suscita o sabor da atualidade e, portanto, permite o diálogo imediato entre o tempo presente e a narrativa de linguagem híbrida, aberta, simbólica, cujos traços carecem de debates e estudos que busquem, no mínimo, a compreendê-los.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORTÁZAR, Julio. Alguns aspectos do conto. In:_____. Valise de cronópio. Trad. Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2006. GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do conto. 5. ed. São Paulo: Ática, 1990. PIGLIA, Ricardo. Formas breves. Trad. José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Cia das Letras, 1990. SCHØLLHAMMER, Karl Erik. Miniatura e fragmento: brevíssima incursão pelas formas breves do Brasil. In: NOGUEROL, Francisca (Org.). Escritos disconformes. Nuevos Modelos de Lectura. Salamanca: Universidad de Salamanca, 2004. _____. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

PALAVRAS-CHAVE

CONTO; DINAMICIDADE; REAL; CONTEMPORANEIDADE.

PROGRAMAÇÃO

S01 08/09 08h-13h - https://youtu.be/Dtf-74sRi3k

S02 08/09 14h-18h - https://youtu.be/fvPiMl4Bykk