LITERATURAS DE LÍNGUA INGLESA DA/NA/SOBRE ÁFRICA - AMPLIANDO DIÁLOGOS, TRAVESSIAS, DESAFIOS

SIMPÓSIO - ST56

COORDENADORES

JANICE INES NODARI (UFPR)
Mônica Stefani (UFSM)
João Pedro Wizniewsky Amaral (UFSM)

RESUMO

Dentre as inúmeras formas de domínio instauradas nas colônias europeias na África, a imposição de uma língua estrangeira, que deveria ser usada em diferentes espaços, tais como comércio, educação e mesmo religião, permitiu uma série de injunções e perdas. Ainda que seja comum encontrarmos produções de escritores e escritoras provenientes de ex-colônias britânicas na África nessas línguas estranhas, impostas, percebe-se na produção desses artistas o movimento de deixar tais imposições marcadas, seja pelo caminho inverso, de escrita e publicação em línguas africanas (THIONG’O, 2012), seja na escolha por usar termos em suaíle, zulu, igbo, iorubá, entre outras línguas, em suas composições. É o caso de produções de Binyavanga Wainaina, Buchi Emecheta, Chimamanda Adichie, Chinua Achebe, Grace Ogot, J. M. Coetzee, Ngugi wa Thiong’o, Wole Soyinka, para citar apenas alguns expoentes. O objetivo deste simpósio é acolher propostas de trabalhos que oportunizem a troca de leituras, de análises e informações com contornos teóricos e críticos de produções literárias africanas especialmente em língua inglesa, bem como colocar essas produções em cotejo com artefatos literários em outras línguas, notadamente a língua portuguesa. Tomamos como ponto de partida o fato de que as Nações Unidas reconheceram a necessidade de promoção e proteção dos direitos humanos de afrodescendentes espalhados pelo mundo, estejam eles em exílio ou diáspora (HALL, 2013), ao declarar o período compreendido entre 2015 e 2024 como sendo a Década Internacional dos Afrodescendentes. Ilustres artistas dentre esses afrodescendentes espalhados pelo mundo dão a conhecer algumas tradições africanas, e experiências de colonialismo (ASHCROFT, GRIFFITHS, TIFFIN, 2013; CÉSAIRE, 2000; SAID, 1993) e pós-colonialismo (GIKANDI, 2009) especialmente em sua escrita, objetivando enaltecer a identidade multifacetada dos indivíduos africanos num claro processo de descolonização, conforme proposto por Frantz Fanon (1952, 1961) e revisitado por Ng?g? wa Thiong’o (1986, 2012). De acordo com Frantz Fanon (1952), a descolonização requer reelaboração contínua, não é um processo com data de término marcada, e perpassa a experiência do sujeito em diversos âmbitos de sua existência e atuação. Já de acordo com Ng?g? wa Thiong’o (1986), a descolonização deve primeiramente acontecer na mente do indivíduo antes que possa ter alguma repercussão prática e viável em seu entorno. Reflexos possíveis da descolonização podem ser concretizados tanto na oratura (THIONG’O, 2012) quanto na literatura, uma vez que, segundo o autor, “foi a ficção que primeiro nos deu a teoria da situação colonial.” (2012), ou seja, tanto a manutenção quanto o questionamento se dão nas expressões orais e escritas. Ambas as perspectivas defendidas por esses escritores questionam tanto o cânone literário pré-estabelecido quando a hegemonia do discurso acadêmico e apontam para práticas de autotradução (BANDÍN, 2003; GENTZLER, 1993), autobiografia (EAKIN, 2014; LEJEUNE, 1989; SMITH & WATSON, 2010), outrobiografia ou escrita de si (ATTRIDGE, 2004; COETZEE & KURTZ, 2015), que se manifestam tanto na poesia quanto na prosa, em romances, novelas, contos, ensaios, peças de teatro, poemas e mesmo em trabalhos acadêmicos. Essas produções questionam a própria existência de um cânone literário eurocentrado e anglófono ao inserir muito mais do que alguns temperos africanos e uma aparente obediência em suas manifestações escritas em língua inglesa. A escrita de si e do coletivo é entendida não apenas como um movimento estético, mas como um resgate da memória, podendo essa ser tanto a memória individual quanto a coletiva, que encontra no registro oral e no registro escrito possibilidades de revisitação, de compreensão, de preservação da identidade de afrodescendentes. É, portanto, um movimento marcadamente político que encontra ecos e semelhantes no sul geográfico, o qual, segundo J. M. Coetzee, é único (HALFORD, 2016). Para o leitor atento, é possível estabelecer paralelos nas produções literárias da África e da América Latina também pelo viés da abordagem decolonial (MIGNOLO, 2012; MIGNOLO & WALSH, 2018), e tal premissa autoriza uma outra maneira de entender a história tanto de povos quanto de indivíduos. Ainda, esses ecos e semelhanças fazem com que, como acadêmicos brasileiros, nos debrucemos sobre as literaturas africanas de língua inglesa com o intuito de revigorar os nossos pensamentos enquanto intelectuais que vivem (n)o sul geográfico (e, aparentemente, periférico), não apenas para darmos voz às produções africanas em língua inglesa, mas para encontrarmos nossa própria voz ao ampliarmos diálogos, travessias e desafios para além da academia, objetivando (re)encontrarmos nosso passado, (re)desenharmos nosso presente e (re)imaginarmos nosso futuro.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASHCROFT, Bill; GRIFFITHS, Gareth; TIFFIN, Helen. (Eds.). Postcolonial Studies. The Key Concepts. 3rd ed. London, New York: Routledge, 2013. ATTRIDGE, Derek. Coetzee and the Ethics of Reading: Literature in the Event. Chicago: University of Chicago Press, 2004. BANDÍN, Elena. The Role of Self-translation in the Decolonisation Process of African Countries. Universidade de León, 2003, p. 35-53. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/283237317_The_role_of_self-translation_in_the_colonisation_process_of_african_countries. Acesso em: 13 jan 2018. CÉSAIRE, Aimé. Discourse on Colonialism. Trans. Joan Pinkham New York: Monthly Review Press, 2000. COETZEE, John Maxwell; KURTZ, Arabella. The Good Story: Exchanges on Truth, Fiction and Psychotherapy. New York: Viking, 2015. EAKIN, Paul John. Fictions in Autobiography: Studies in the Art of Self-Invention. Princeton: Princeton University Press, 2014. FANON, Frantz. The Wretched of the Earth. Trans. Richard Philcox. New York: Grove Press, 1961. _____. Black Skin, White Masks. Trans. Charles Lam Markmann. London: Pluto Press, 1952. GENTZLER, Edwin. Contemporary Translation Theories. 2nd. ed. London: Routledge, 1993. GIKANDI, Simon. Cambridge Studies in African and Caribbean Literature. Ng?g? wa Thiong’o. Cambridge: Cambridge University Press, 2009. HALFORD, James. Reading Three Great Southern Lands: From the Outback to the Pampa and the Karoo. The Conversation, 11 jul. 2016. Disponível em: <https://theconversation.com/reading-three-great-southern-lands-from-the-outback-to-the-pampa-and-the-karoo-60372> Acesso em: 29 mar. 2021. HALL, Stuart. Da Diáspora. Identidades e Mediações Culturais. Trad. Adelaide La Guardia Resende, Ana Carolina Escosteguy, Cláudia Álvares, Francisco Rüdiger e Sayonaram Amaral. Belo Horizonte: UFMG, 2013. LEJEUNE, Philippe. On Autobiography (Theory and History of Literature). Minneapolis: University of Minnesota Press, 1989. MIGNOLO, Walter. Local Histories/Global Designs: Coloniality, Subaltern Knowledges and Border Thinking. 2nd ed. with new preface. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2012. MIGNOLO, Walter & WALSH, Catherine. On Decoloniality. Concepts, Analytics, Praxis. Durham: Duke University Press, 2018. SAID, Edward W. Culture and Imperialism. New York: Vintage Books ? Random House, Inc., 1993. SMITH, Sidonie; WATSON, Julia. Reading Autobiography – A Guide for Interpreting Life Narratives. Minnesota: University of Minnesota, 2010. THIONG’O, Ng?g? wa. Globalectics. Theory and the Politics of Knowing. New York: Columbia University Press, 2012. _____. Decolonising the Mind: The Politics of Language in African Literature. London: Routledge, 1986.

PALAVRAS-CHAVE

literaturas africanas em língua inglesa; pós-colonialismo; descolonização; identidades; memória.

PROGRAMAÇÃO

S01 09/09 09h-12h - https://youtu.be/rwksCefv1tQ

S02 09/09 14h-17h - https://youtu.be/_keP1Ua2U1A