DOENÇAS EM FICÇÕES: IMAGINÁRIOS E REPRESENTAÇÕES

SIMPÓSIO - ST17

COORDENADORES

Marcio Markendorf (UFSC)
FERNANDA MÜLLER (Colégio de Aplicação - UFSC)
Renata Philippov (UNIFESP)

RESUMO

Em 1926, no ensaio “Sobre estar doente”, Virginia Woolf reclamou que não havia, até aquele momento, um aparato metafórico e um trabalho literário mais detido sobre as enfermidades, o que – na conclusão da escritora – remeteria a uma incapacidade de a doença conter o sublime. O breve ensaio poético, contudo, ignorava um conjunto de obras concebidas sobre o tema nas mais diversas perspectivas – do real ao fantástico, do literal ao alegórico. Ensaio crítico de maior fôlego viria a público apenas em 1978, quando Susan Sontag escreve Doença como metáfora, no qual são descritos e problematizados os usos (e abusos) cometidos pela mídia e pelo senso comum ao empregarem as enfermidades como viés metafórico para se referir a todo tipo de mazelas de ordem social, política ou econômica, como: “o desemprego é o câncer da sociedade”. O estudo atuava no universo cultural, esvaziando o sistema metafórico de representação, a fim de proteger a subjetividade dos enfermos, especialmente dos que lutavam contra o câncer. Tal abordagem é retomada dez anos mais tarde, em A AIDS e suas metáforas, quando Sontag coloca em xeque, a partir da pandemia de HIV dos anos 1980, os elementos presentes no imaginário relacionado à contaminação e o modo como essas representações afetavam os enfermos. Aos trabalhos de Sontag somamos os estudos sobre a abjeção (KRISTEVA, 1980; BUTLER, 2013), o que inclui a natureza simbólica e estética do monstro (COHEN, 2000; NAZÁRIO, 2003; CARROL, 1999) e permite estabelecer paralelos entre enfermidade e monstruosidade, problematizando comportamentos sociais diante de situações de contágio e contaminação, bem como a imaginação acerca do corpo doente. Passando para o campo da literatura propriamente dito, podemos ver esse intenso debate político reverberar na elaboração de obras como a coletânea Tente entender o que tento dizer – Poesia + HIV/AIDS, organizada por Ramon Nunes Mello, ou o romance Tribunal da quinta-feira, de Michel Laub. Embora sejam textos contemporâneos, dialogam com o romance reportagem de Um diário do ano da peste, Daniel Defoe (Reino Unido, 1722), o caráter filosófico de A peste, Albert Camus (França, 1947), o realismo mágico de O amor nos tempos do cólera, Gabriel García Márquez (Colômbia, 1985) ou as colagens e deslocamentos de O mez da grippe, de Valêncio Xavier (Brasil, 1998), uma vez que todas tomam como ponto de partida doenças e epidemias reais, com surtos historicamente situados. Há também uma vertente contemporânea mais metafórica ou alegórica, tributária de uma tradição mais atrelada à estética romântica do século XIX, marcada pela exploração de elementos fantásticos, horríficos ou insólitos presentes em contos de Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant, ou ainda em romances como O último homem, de Mary Shelley (Inglaterra, 1826), a qual ecoaria no século seguinte em obras como Eu sou a lenda, de Richard Matheson (Estados Unidos, 1954), Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago (Portugal, 1995), Os anões, de Luis Andre Nepomuceno (Brasil, 2009) e Nêmesis, de Philip Roth (Estados Unidos, 2010) e Corpos secos, obra multiautoral de Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado (Brasil, 2020). Se a temática da doença, não raro atrelada à estética do grotesco e ao domínio da abjeção, já somava farto repertório literário e crítico, com a deflagração da pandemia de Covid-19, no início de 2020, nota-se um crescente interesse do público por narrativas sobre epidemias, fenômeno que alçou à condição de best-seller anacrônico obras como o romance A peste, de Albert Camus, e alçou o filme Contágio (Contagion, Steven Soderbergh, 2011) ao status de hit no serviço de streaming. O interesse por narrativas como essas foi responsável, inclusive, pelo relançamento de O mez da grippe, de Valêncio Xavier, livro ganhador do Prêmio Jabuti, que se encontrava esgotado no mercado editorial desde 1998. De modo geral, obras que tratam sobre a doença e suas consequências coletivas, epidemias e pandemias, estimulam reflexões teóricas sobre o sistema de feixes metafóricos das enfermidades, o frequente emprego de sinais cósmicos que prenunciam pragas, a ascensão de discursos nacionalistas e xenofóbicos, formas de preconceito radical contra infectados, a busca de remédios milagrosos ou curas mágicas para os males, relações entre o problema coletivo e a noção bíblica de pecado, a gestão governamental das situações de crise sanitária, o sensacionalismo midiático, o extermínio de animais, a imposição da quarentena, o debate sobre os direitos individuais, a crise econômica, a necessidade de subsistência da população e o consequente colapso social, sanitário e funerário. Dado o exposto, este simpósio pretende abarcar trabalhos que reflitam sobre contextos de epidemias – reais ou imaginárias – e/ou de representação de doenças na ficção, a fim de formar uma gama bastante diversificada de abordagens, da estética à política, do surto à pandemia, da alegoria à necropolítica, do objeto ao abjeto, do jornalístico ao insólito, do horror artístico ao horror social.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARTAUD, Antonin. O teatro e a peste. In: ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 1999. BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 6 ed. Tradução de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. CAMUS, Albert. A peste. 19. ed. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 2009. CONTÁGIO (Contagion). Direção de Steven Soderbergh. Roteiro de Scott Z. Burns. Coprodução Emirados Árabes, Estados Unidos e Hong Kong. 2011. 1h46 min. Color. CARROL, Nöel. A filosofia do horror ou os paradoxos do coração. Tradução de Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus, 1999. COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (Org.). Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 23-60. DEFOE, Daniel. Um diário do ano da peste. Tradução de E. San Martin. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2002. GEISLER, Luisa; FERRONI, Marcelo; POLESSO, Natalia Borges; MACHADO, Samir Machado de. Corpos secos. Rio de janeiro: Alfaguara, 2020. KRISTEVA, Julia. Pouvoirs de l’horreur: Essai sur l’abjection. Paris: Éditions du Seuil, 1980. LAUB, Michel. O tribunal da quinta-feira. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. MARQUEZ, Gabriel García. O amor nos tempos do cólera. Tradução de Antonio Callado. São Paulo: Record, 1985. MATHESON, Richard. Eu sou a lenda. Tradução Delfin. São Paulo: Aleph, 2015. MELLO, Ramon Nunes. Tente entender o que tento dizer – Poesia + HIV/AIDS. Rio de janeiro: Bazar do tempo, 2018. NAZARIO, Luiz. Da natureza dos monstros. São Paulo: Arte & Ciência, 2003. NEPOMUCENO, Luís André. Os anões. Rio de janeiro: 7 Letras, 2009. ROTH, Philip. Nêmesis. Tradução de Jorio Dauster. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. SHELLEY, Mary. O último homem. Tradução de Marcella Furtado. São Paulo: Landmark, 2007. SONTAG, Susan. Doença como metáfora, AIDS e suas metáforas. Tradução de Rubens Figueiredo e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. WOOLF, Virginia. Sobre estar doente. In: WOOLF, Virginia. O sol e o peixe: prosas poéticas. Seleção e tradução Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015. p. 67-84. XAVIER, V. O Mez da Grippe e outros livros. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

PALAVRAS-CHAVE

Doença; Epidemias; Imaginário; Representação; Literaturas.

PROGRAMAÇÃO

S1 14/09 14h-18h - https://youtu.be/HpAIACjKXJk

S2 15/09 14h-18h - https://youtu.be/Hmnj2bsHVzU

S3 16/09 14h-18h - https://youtu.be/XiGEiQTy7t8