LITERATURA E TECNOLOGIA - FUTUROS (IM)POSSÍVEIS

SIMPÓSIO - ST48

COORDENADORES

Vinícius Carvalho Pereira (Universidade Federal de Mato Grosso)
Andréa Catrópa da Silva (Universidade Anhembi Morumbi)
Rejane Cristina Rocha (Universidade Federal de São Carlos)

RESUMO

Debates sobre literatura e tecnologia têm crescido em todo o mundo, ainda que mais lentamente no Brasil do que no Hemisfério Norte ou em outros países latino-americanos. A longa história da aproximação entre esses dois campos do saber já foi retraçada em publicações acadêmicas sobre o tema, as quais retomam a ambiguidade do termo tékhne no pensamento aristotélico, que designa o artificial ou técnico em oposição à physis. É comum que os primeiros gêneros elencados como significativos dessa ambiguidade sejam as narrativas utópicas ou distópicas sobre a relação homem-máquina, produzidas desde o Renascimento. Posteriormente a ficção científica passa a se destacar nesse âmbito, especialmente nos sistemas literários inglês e estadunidense a partir do século XIX. A discussão das imbricações entre literatura e tecnologia pode – entre tantos outros percursos distintos – partir dessa literatura sobre a máquina para uma análise da literatura como máquina, no que ganham destaque os movimentos de vanguarda e neovanguarda do século XX, como a escrita automática surrealista, os jogos tipográficos concretistas, ou a linguagem como potência algorítmica do grupo Oulipo. Sob a superfície variada desses experimentalismos, observa-se um vetor comum que aproxima a arte verbal de uma certa engenharia da palavra, em associação ou não com a imagem, favorecendo projetos artísticos de rigor formalista ou algebrismos insuspeitos. As relações entre a literatura e a tecnologia podem, ainda, ser mapeadas a partir dos suportes em que os signos são produzidos, circulados ou consumidos. Nesse âmbito, observa-se a evolução das materialidades da literatura – com destaque para a invenção do livro – para os processos de escritura com ou para os aparatos eletro-eletrônicos, nos séculos XX e XXI, sejam as máquinas de escrever elétricas, os softwares editores de texto, ou os dispositivos digitais de leitura (e-readers), entre tantos outros que vêm se multiplicando nos últimos anos. Ainda nesse contexto, cumpre destacar o espaço crescente da “literatura eletrônica”, “literatura cibernética/ciberliteratura” ou “literatura digital”. Muito embora se reconheça que cada um desses adjetivos atrelados ao substantivo “literatura” denota a especificidade do campo por uma associação particular (respectivamente, ao eletrônico, em oposição ao elétrico; ao cibernético, por referência à comunicação entre máquinas; e ao digital, em oposição ao analógico), o conjunto de obras recobertas pelos três termos é praticamente o mesmo, o que justifica seu uso intercambiável neste contexto. Para fins de clareza, pode-se utilizar, porém, a definição de literatura eletrônica postulada pela Electronic Literature Organization (maior grupo mundial de estudos sobre o tema): textos que contêm “um aspecto literário importante que aproveita as capacidades e contextos fornecidos por um computador independente ou em rede” (HAYLES, 2009, p. 21). Ou, ainda, recorrer à definição proposta por Carolina Gainza (2021), que compreende a literatura digital como aquela que experimenta com o código ou com a mídia digitais, referindo-se não apenas a obras construídas pela programação de softwares e linguagens de programação, mas também àquelas produzidas pelo aproveitamento criativo de redes sociais e plataformas de comunicação, em um movimento descrito por Arlindo Machado (2007) como "desprogramação da técnica”. Há que se destacar, por fim, que nenhum dos eventos que pontuam a história das associações entre literatura e tecnologia pode ser compreendido de forma dissociada dos fenômenos sociais, políticos e econômicos da modernidade e da contemporaneidade. Devem, pois, ser entendidos como parte de um processo maior de mudança social, e não como produto de um determinismo tecnológico ou estético, o qual alienaria o código de sua função precípua: a expressão humana. É o que postulam estudos e desenvolvidos por estudiosos oriundos de países periféricos no que tange ao desenvolvimento tecnológico, como é o caso de Kozak (2013, 2019) e Gainza (2018), por exemplo. Nesse contexto, propomos o presente simpósio, já em sua segunda edição, com vistas a congregar estudos sobre as relações que podem ser estabelecidas entre os campos da literatura e da tecnologia, atentando para os pontos mencionados ao longo deste resumo, ou para outros que possam se mostrar pertinentes à temática. Nosso objetivo é fomentar e ampliar as discussões sobre o campo, relevante não só pelo rendimento estético dos produtos literários que o integram, mas também pelas provocações que coloca, sobretudo no que diz respeito às definições de escrita, texto, autoria, leitura – isto é, alguns dos pilares sobre os quais se assenta o entendimento do fenômeno literário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GAINZA, C. Narrativas y poéticas digitales en América Latina Producción literaria en el capitalismo informacional. México/Santiago: Centro de Cultura Digital/Editorial Cuarto Própio, 2018. GAINZA, C. Nuevos escenarios literarios: hacia una cartografía de la literatura digital latinoamericana. In: MÜLLER, G.; GUERRERO, GUSTAVO; LOY, BENJAMIN (Eds.). World editors: Dynamics of Global Publishing and the Latin American Case between the Archive and the Digital Age. Berlim/Boston: De Gruyter, 2021. p. 331–349. HAYLES, K. Literatura eletro?nica: novos horizontes para o litera?rio. Sa?o Paulo: Global, 2009. KOZAK, C. Del modo de existencia de los objetos técnico-literarios. Pequeño diccionario personal ilustrado de literatura digital. In: GERBAUDO, A.; PRÓSPERI, G.; TOSTI, I. (Eds.). IX Argentino de Literatura. Santa Fé: Universidad Nacional del Litoral, 2013. ___. Poéticas/políticas de la materialidad en la poesía digital Latinoamericana. Perífrasis. Revista de Literatura, Teoría y Crítica, v. 10, n. 20, p. 71–93, 2019. MACHADO, A. Arte e Mídia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

PALAVRAS-CHAVE

Literatura e tecnologia; Máquina; Experimentalismos; Materialidades; Códigos.

PROGRAMAÇÃO

S01 29/09 15h-17h - https://youtu.be/lGaEvLqL0Cc

S02 29/09 18h-20h - https://youtu.be/v93mcIecGTk

S03 30/09 15h-17h - https://youtu.be/qR6bj8caATo

S04 30/09 18h-20h - https://youtu.be/VTGBD15-Q4U