ROMANTISMO E CLASSICISMO: ATUALIDADES DE UMA VELHA BATALHA

SIMPÓSIO - ST80

COORDENADORES

Andréa Sirihal Werkema (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Maria Juliana Gambogi Teixeira (Universidade Federal de Minas Gerais)

RESUMO

“O conceito de poesia romântica, que atualmente corre o mundo e causa tanta polêmica e discórdia, partiu originalmente de mim e de Schiller. (...) Os Schlegel adotaram a ideia, e a desenvolveram, de modo que agora ela se disseminou pelo mundo todo, e todo mundo agora fala em classicismo e romantismo, nos quais ninguém pensava há cinquenta anos” (ECKERMANN, 2016, p. 392). À primeira vista, as polêmicas e discórdias evocadas por Goethe, versando sobre Romantismo e Classicismo, não têm mais lugar na cena contemporânea. Mesmo as definições de clássico e de romântico como opostos naturais perderam um tanto de sua força já que tal oposição deixou de fazer sentido no dia a dia de uma literatura que se voltou para outros problemas ditos mais urgentes. Afora o campo dos especialistas, tem-se por plenamente assente a identidade dos dois contendores da antiga disputa, assim como já bem demarcado o seu vencedor. Os românticos teriam ganhado a briga e, ao ganhá-la, fundaram a ideia moderna de Literatura. Mas se a ganharam, será para, logo a seguir, perdê-la para seus herdeiros imediatos que, recusando a herança, dispõem seus antecessores em lugar bem próximo àquele que estes haviam outorgado aos clássicos: literatura ultrapassada, datada. Há alguma ironia (talvez não exatamente a romântica) no desfecho dessa história. Afinal, uma das armas principais do combate romântico contra o classicismo é justamente a da atualidade, seu mais perfeito ajuste às formas do tempo e suas demandas específicas. Lembremos Stendhal: “O romantismo é a arte de apresentar aos povos as obras literárias que, no estado atual de seus costumes e de suas crenças, são passíveis de lhes proporcionar o maior prazer possível. O classicismo, ao contrário, apresenta-lhes a literatura que proporcionava o maior prazer possível a seus bisavós” (STENDHAL, 2008, p. 73). Convertidos os românticos em nossos bisavós, aos clássicos (qualquer que seja a identidade que se lhes atribua) caberia, no melhor dos cenários, a dimensão de fósseis. E para ambos, sobram apenas os “arqueólogos” da literatura, cujo idiossincrático prazer estaria na contramão do estado atual dos costumes e crenças. Assim seria a história se alguns autores que ainda gozam de “atualidade” não nos indicassem que os restos dessa arqueológica batalha, ao serem escavados, iluminam questões aparentemente obscuras do presente da literatura e nos obrigam a revisar a historieta acima. Que se pense em Jacques Rancière, que tomando para si o desafio de reconstituir o “sistema de razões” que funda o nosso conceito de Literatura, retoma a cena supostamente obsoleta de modo a avaliar o que se perde e o que se ganha quando a implosão do sistema beletrista substitui um sistema literário assentado na “palavra eficaz” pelos tormentos de uma “palavra muda” (RANCIÈRE, 2010). Ou ainda em Thomas Pavel, que em um de seus retornos ao XVII francês e sua estética “estrutural e conscientemente infiel à realidade empírica” (PAVEL, 1996, p. 371), contrapõe esse “suplemento ontológico visível” próprio à ordem de mundo beletrista à “transfiguração da banalidade e sagração do lugar comum” e ao estreitamento do imaginário próprios à literatura moderna. E radicalizando o olhar para o presente através do cultivo do passado, lembremos João Adolfo Hansen em suas agudezas antianacrônicas, capazes de surpreender a atualidade através de um rigoroso investimento no que já não lemos (e nem sabemos ler) de um passado que deve ser reconstituído para que se faça mais clara a própria ideia do presente. De fato, uma compreensão mínima do imenso legado clássico – em toda a sua diversidade e complexidade – na literatura ocidental é pré-requisito para qualquer estudo que se faça no campo dos estudos literários, assim como o entendimento da quebra, ou da revolução romântica se faz caminho obrigatório para entender formas, aberturas e mesmo a transformação incessante dos gêneros literários. Mesmo a oposição clássico x romântico tem que ser revista de maneira incessante, já que se sustenta muitas vezes apenas de maneira didática, histórica ou metodológica, sendo que a verdade textual pode nos contar outra história. Demos alguns exemplos pontuais e apenas ilustrativos do problema proposto para formular um convite que aqui se faz aos amantes de literaturas inatuais, estejam elas conformadas nas doutrinas clássicas ou nas batalhas românticas, ou nos entrecruzamentos possíveis entre tais caminhos, para que venham conversar conosco – e, eventualmente, polemizar – sobre o muito de surpresa que ainda guarda esse passado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ECKERMANN, Johann Peter. Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida. 1823-1832. Trad. Mário Luiz Frungillo. São Paulo: Editora UNESP, 2016, p. 392. HANSEN, João Adolfo. Agudezas seiscentistas e outros ensaios. Org. de Cilaine Alves Cunha e Mayra Laudanna. São Paulo: Edusp, 2019. RANCIÈRE, Jacques. La parole muette – essai sur les contradictions de la littérature. Paris: Fayard, 2010. STENDHAL. Racine e Shakespeare. Trad. Leila de Aguiar Costa. São Paulo: Edusp, 2008, p. 73. PAVEL, Thomas. L’art de l’éloignement – essai sur l’imagination classique. Paris: Gallimard, 1996, p. 371

PALAVRAS-CHAVE

Romantismo; Classicismo; Neoclassicismo; historiografia literária.

PROGRAMAÇÃO

S01 21/09 15h-18h - https://youtu.be/uK_x59vUKtQ

S02 22/09 15h-18h - https://youtu.be/rtlt1AHGEhE

S03 23/09 15h-18h - https://youtu.be/7vBV7c4cmQY

S04 24/09 09h30-12h - https://youtu.be/Qh54Nem1HcA

S05 24/09 15h-17h30 - https://youtu.be/6A6uI0fiAr4