Bossa nova e haicai: similaridades histórico-estéticas

PÔSTER - XVII Congresso Internacional ABRALIC

Leonardo Pinto dos Reis

ORIENTAÇÃO: Andrei Cunha

RESUMOS: Bossa nova e haicai são manifestações artísticas do Brasil e do Japão, respectivamente, surgidas em reação a estéticas dominantes caracterizadas pelo excesso. No Japão do final do século XVI e início do século XVII, a poesia encadeada (cuja primeira estrofe dará origem ao que conhecemos como haicai) apresentava um número muito grande de regras de composição, dificultando a manifestação das impressões do cotidiano (FRANCHETTI, 1996). No Brasil dos anos 1950, o exagero estava no samba-canção, que tinha temas melodramáticos e letras demasiadamente sentimentais (TATIT, 2004). Nos dois contextos, havia ainda classes ascendentes em transição social: no Japão, o consumo de literatura se espalhou para além da aristocracia, tendo de abarcar temas da classe burguesa e se adequar aos novos consumidores (SHIRANE, 1998). A solução foi apagar grande parte das regras e adotar a linguagem popular (FRANCHETTI, 1996), unindo tradição e modernidade. No Brasil, a classe média instruída e a classe estudantil cada vez mais influente nos grandes centros não se identificavam com o exagero do samba-canção (TATIT, 2004). Eis a bossa nova: ainda tratando da temática sentimental, traz uma linguagem corriqueira e contida, uma “essencialização dos textos” (BRITO, 2005) que apela às classes emergentes. Esteticamente, a concisão que aglutina significados aproxima haicai e bossa nova. A partir dessa aproximação, pretendo construir uma associação histórico-estética entre os gêneros, que seja um âmbito para a criação de traduções de haicais em português brasileiro, e de letras de bossa nova em japonês, que melhor considerem as peculiaridades das “línguas-culturas-histórias” (MESCHONNIC, 1980) nas quais irão se inserir.

PALAVRAS-CHAVE: haicai; bossa nova; poesia japonesa; canção popular brasileira; comparatismo.

REFERÊNCIAS: FRANCHETTI, Paulo; DOI, Elza Taeko; DANTAS, Luiz. Haikai. Campinas: UNICAMP, 1996. TATIT, Luiz. O século da canção. Cotia: Ateliê, 2004. SHIRANE, Haruo. Traces of dreams — Landscape, cultural memory and the poetry of Matsuo Bashô. Stanford: Stanford University, 1998. BRITO, Brasil R. Bossa nova. In: CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. São Paulo: Perspectiva, 2005. p. 17–40. MESCHONNIC, Henri. Propostas para uma poética da tradução. In: LADMIRAL, Jean-René. A tradução e seus problemas. Tradução de Luisa Azuaga. Lisboa: Edições 70, 1980. p. 78-87.