Minicurso confirmado: Formas de comparatismo na recepção moderna de Homero

Ministrante: Christian Werner (USP)
Carga horária: 6h/a
Data: 23, 24, 25 e 26 de agosto, das 8h às 9:30.

Resumo do minicurso: O objetivo principal deste curso é a discussão de práticas de comparatismo por meio de quatro exemplos da recepção moderna das epopeias de Homero: Laocoonte, de G. E. Lessing; a chamada "teoria oral", desenvolvida por M. Parry e A. B. Lord; "A cicatriz de Ulisses", de E. Auerbach; e Primeiras estórias, de J. G. Rosa.

Com efeito, Singer of tales, de A. B. Lord (a tradução da monografia está no prelo pela Editora UFPR), e Mimesis, de E. Auerbach, tornaram-se dois clássicos das primeiras décadas de desenvolvimento dos estudos de comparação no século XX. Já em Laocoonte, uma proposta de contrapor poesia e pintura, Lessing faz uso de Homero e de sua recepção antiga para construir argumentos que têm dialogado de forma frutífera com desenvolvimentos recentes da teoria literária cognitiva. Por fim, "Famigerado" e "Fatalidade", dois contos de Primeiras Estórias, adaptam episódios emblemáticos dos dois poemas homéricos, respectivamente, o cegamento de Polifemo na Odisseia e o duelo entre Aquiles e Heitor na Ilíada. Todos esses textos, embora sejam significativos, de formas diversas, como propostas de reflexão sobre a épica homérica, são antes de tudo tentativas historicamente condicionadas de seus autores falarem do presente de seus receptores e a eles por meio do engajamento crítico e criativo com um texto antigo.

No caso do Laocoonte, pretende-se focar nas consequências da oposição entre narrativa e descrição e em como as conclusões de Lessing, por intermédio da noção antiga da enargeia ("vivacidade pictórica"), dialogam com a aplicação da teoria enativa da cognição nos estudos literários. A chamada "teoria oral" de Parry-Lord será abordada por meio da metodologia comparativa proposta pelos dois pesquisadores e de suas ligações com o debate acerca da relação entre tradição e recepção. Quanto ao influente capítulo de Auerbach, sua contextualização histórica no desenvolvimento da ideologia nazista e a proposta de contraste entre Homero e o Velho Testamento serão as balizas principais para se revisitar as conclusões de que o estilo homérico se restringe ao primeiro plano, no limite, funcionando como um narcótico. Por fim, a partir dos usos das tradições clássicas em Primeiras estórias e da recepção da matriz épica em Grande sertão: veredas, vai-se indagar por que e como "Fatalidade" e "Famigerado" remetem a Homero.