TRANSIDENTIDADES NA LITERATURA

MESA REDONDA

Dennys Silva-Reis - Sand, Balzac e Gautier sob o signo do Travestismo: trans-identidades na literatura francesa do século XIX

Resumo: As trans-identidades estão presentes na literatura francesa desde há muito tempo. Entretanto, a crítica literária heteronomativa brasileira tem escamoteado tais identidades, especialmente, entre autores canônicos. A fim de evidenciar tal argumento, o presente trabalho visa trazer à tona três obras de autores franceses clássicos – Gabriel de Georges Sand, Séraphîta de Honoré de Balzac e Mademoiselle de Maupin de Théophile Gautier – e analisá-los sob o signo do Travestismo. Interessa saber como a questão das trans-identidades é abordada nas narrativas francesas do século XIX, bem como se dá o travestismo narrativo a partir da construção de personagens, do clímax do enredo e da retórica textual. Estima-se que a ausência de fortuna crítica e a não-tradução destas obras no Brasil estejam relacionadas a uma crítica literária dos estudos franceses ainda binarista e ao desconhecimento da vertente literária francófona trans-identitária.

Minibiografia: professor de Literatura de Expressão Francesa na Universidade Federal do Acre (UFAC- campus Rio Branco/AC) e do Mestrado Acadêmico em Estudos Literários (MEL/UNIR/RO). Doutor em Literatura (POSLIT/UnB) e mestre em Estudos da Tradução (POSTRAD/UnB) – ambas investigações sobre o escritor francês Victor Hugo. Co-organizador das obras Literatura e Outras Artes na América Latina (2019, em colaboração com Sidney Barbosa) e A tradução de quadrinhos no Brasil: princípios, práticas e perspectivas (2020, em colaboração com Kátia Hanna). Prepara para o corrente ano a obra Estudos da Tradução & Questões LGBTQI+ (em co-organização com Vinícius Martins Flores). Dentre as publicações de livre acesso, organizou recentemente os números Tradução & Feminismos Negros (2019, revista Ártemis, em colaboração com Cibele de Guadalupe Sousa de Araújo e Luciana de Mesquita Silva) e Mujeres y traducción en América Latina y el Caribe (2020, revista Mutatis Mutandis, em colaboração com Luciana Carvalho Fonseca e Liliam Ramos da Silva). Em 2020, a convite da Casa Guilherme de Almeida – Centro de Estudos de Tradução Literária, ministrou o curso A tradução queer: teoria, história e práxis.

Amara Moira - Diadorim homem até o fim: leituras transviadas do Grande Sertão

Resumo: A obra que, provavelmente, mais recebeu spoilers na história da nossa literatura, com os acontecimentos das suas dez ou quinze páginas finais, dentre as quase seiscentas (a depender da edição), sendo escancaradas em qualquer menção ao texto. Qual o intuito de tais spoilers? Que Grande Sertão: Veredas tem sido lido a partir deles? A proposta aqui será refletir sobre o papel da crítica na heterossexualização do romance de Rosa, o que tem impedido a obra de ser lida pelo que ela é: um marco da literatura LGBTQIA+ brasileira.

Minibiografia: Travesti, feminista, doutora em teoria e crítica literária pela Unicamp (com tese sobre as indeterminações de sentido no Ulysses, de James Joyce) e autora do livro autobiográfico E se eu fosse puta (hoo editora, 2016) e da obra Neca + 20 poemetos travessos (O Sexo da Palavra, 2021), que reúne a primeira versão do seu monólogo experimental em pajubá e sua produção poética sobre vivências travestis.

Feibriss Henrique Meneghelli Cassilhas - Mentes trans(vestigeneres) em convergência: a criação de destinos anticoloniais na literatura (traduzida) em performance trans negra

Resumo: O Manifesto Bixa Preta, poema de autoria de Luck Yemonja Banke (2018), surge de inquietações poéticas de bixas pretas do Sarau Vozes Negras, coletivo de práticas poético-pedagógicas interseccionais do qual sou uma das fundadoras. Frequentemente, nossas performances trazem em sua concepção projetos que buscam desmentir o destino da colonização para pessoas LGBTQIA+ negras, assim como anuncia Banke em seu poema supracitado. Ou seja, rejeitamos as narrativas coloniais racistas e transfóbicas sobre nós e contamos nossas próprias histórias em nossas criações literárias e interpretações de autores negres. Com raízes nas movimentações poéticas desta coletividade, neste trabalho, dedico-me à prática de tradução-performance de textos literários de autoria trans(vestigeneres) com o objetivo de propor esta prática como exercício de auto conhecimento e cura que se tornam possíveis na convergência de mentes. Foram escolhidos, para este momento, trechos de obras das contadoras de histórias Kiley May (2012, 2016) e Janet Mock (2014), cuja análise se dará pela realização de uma tradução-performance desses textos.

Minibiografia: Feibriss H. M. Cassilhas é professora Adjunta A pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) na área de Letras Inglês. É doutora e mestra em Estudos da Tradução pelo programa de Pós Graduação em Estudos da Tradução (PGET) na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Formou-se em Licenciatura em Língua Inglesa e Bacharelado em Tradução pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em 2009. Performa como Tradutora de Histórias Contadas desde que desenvolveu o projeto de Tradução de Histórias Contra a Hipocrisia Colonial em sua tese de doutorado. É membra fundadora do Sarau Vozes Negras (@vozesnegras no Facebook e no Instagram), um coletivo negro de práticas poéticas-pedagógicas interseccionais. É integrante do grupo de pesquisa Traduzindo no Atlântico Negro (UFBA).