TRADUÇÃO E POESIA

MESA REDONDA

Johnny Lorenz - Mario Quintana em inglês: tradução além das palavras na página

Resumo: A poesia não se trata apenas das palavras no papel; muitas vezes ela explora o aspecto musical de uma língua - o eco das rimas entre as palavras e a dança métrica, a estrutura rítmica das linhas. Além disso, a poesia está sempre atenta aos silêncios sob e por entre as palavras. Porém, como o tradutor de um poema - sobretudo de um poema verso - se envolve com o que a página não deixa visível? Durante esta apresentação, considerarei alguns poemas em versos de Mario Quintana, além de minhas próprias traduções desses poemas, presentes em meu livro de poemas e traduções originais, Education by Windows. Pensaremos juntos sobre as maneiras pelas quais a música - ou a prosódia - acrescenta uma dimensão emocionante e dinâmica ao trabalho de reinvenção do tradutor. A tradução de um poema em versos é, de certa forma, um convite em aberto a outros tradutores. Vamos analisar dois dos poemas mais famosos de Mario Quintana: o curto epigrama "intraduzível", "Poeminho do Contra", e a ode do poeta a Porto Alegre, "O Mapa" - dois poemas que se deliciam em música.

Minibiografia: Johnny Lorenz é poeta, tradutor de literatura brasileira, crítico literário e professor universitário de inglês e suas literaturas. Sua tradução de "Um sopro de vida" (A Breath of Life), de Clarice Lispector, foi finalista do prêmio Best Translated Book Award, e sua tradução de "A cidade sitiada" (The Besieged City), também de Lispector, foi listada como um dos melhores livros de 2019 pela revista Vanity Fair. Entre seus méritos estão um sibsídio do PEN/Heim Translation Fund Grant, um programa de bolsa de estudos Fulbright e, mais recentemente, um incentivo do fundo NEA (National Endowment for the Arts), que subsidiou a tradução de "Torto Arado" (Crooked Plow), de Itamar Vieira Júnior. Seu livro de poemas, Education by Windows, foi publicado pela Poets & Traitors Press. Seus ensaios acadêmicos já foram contemplados nos periódicos Luso-Brazilian Review e Modern Fiction Studies.

Francesca Cricelli - Das múltiplas tessituras da língua: poesia e autotradução em Zingonia Zingone, Prisca Agustoni e Francesca Cricelli

Resumo: A autotradução, ou re-criação poética, pode ser analisada no senso estrito da escrita e em outro, mais amplo, e até metafórico (Grutman, 2014). Os estudos sobre migrações identificam essa prática como uma forma que os autores encontram para manifestar seus diferentes eus, os quais sofrem alterações a partir das mudanças de países, assim como pelo processo de integração numa nova língua e cultura (Besemeres, 2002). Ainda que as autoras que criam e recriam suas obras são as mesmas pessoas, não são vozes idênticas que simplesmente se manifestam em uma ou outra língua.

Partindo de uma perspectiva de contaminações de categorias, sendo a autora poeta-plurilingue e tradutora, o trabalho de escrita e autotradução das poetas Zingonia Zingone (Itália/Costa Rica) e Prisca Agustoni (Suíça/Brasil) será visitado e comentado, assim como será tratada, brevemente, a própria produção poética de Cricelli. Nesse exercício, abre-se espaço para um diálogo expandido em que a autotradução é vista como um processo plural que se manifesta além do trabalho individual (D'Angelo, 2011). A liberdade da autotradução se acomoda na possibilidade de recortar para si mesma um nicho no qual o autor é a autoridade e, ao mesmo tempo, o agente que se autoriza a traduzir (Grutman, 2014). Essa dinâmica já aprofundada e estudada em autores como Beckett, Ungaretti e Henriques-Britto etc. será observada na produção de duas poetas que desenvolvem sua obra entre-mundo e entre o português, o espanhol e o italiano.

Minibiografia: Francesca Cricelli é poeta, tradutora e pesquisadora. É doutora em Letras Estrangeiras e Tradução pela Universidade de São Paulo, tendo descoberto, em sua pesquisa, um acervo inédito de cartas de Giuseppe Ungaretti para Bruna Bianco. Publicou os livros de poemas Repátria no Brasil e na Itália (Selo Demônio Negro, 2015 e Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 nos EUA (edição de autora, 2017), na Islândia (Sagarana forlag, 2017) e na China (Museu Minsheng, 2018), além da plaquette As curvas negras da terra/Las curvas negras de la tierra (edição bilíngue, Nosotros Editorial, 2019). Suas crônicas de viagem e uma breve prosa de autoficção foram reunidas no livro Errância (Edições Macondo e Sagarana forlag, 2019). Sua poesia já foi publicada em revistas como Época (Brasil), Nuovi Argomenti (Itália) e Tímarit Máls og menningar (Islândia) e sua prosa nas revistas Ventana Latina (Reino Unido) e Amarello (Brasil) e na Folha de São Paulo. Traduziu para editoras brasileiras escritoras italianas como Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016), Igiaba Scego (Nós, 2018), Claudia Durastanti (Todavia, 2021) e Fernando Pessoa para o italiano (Interno Poesia, 2021). Vive atualmente em Reykjavík, a capital mais ao norte do mundo, na Islândia, onde estuda língua e literatura islandesas.

Jeffrey Angles - Poesia, Trauma e Tradução

Resumo: Graças ao trabalho de Sigmund Freud, psicólogos há muito tempo reconhecem que as pessoas que passam por trauma costumam apresentar certas características linguísticas incomuns quando falam sobre experiências traumáticas. Por exemplo, a fala de vítimas de trauma pode conter gagueira, repetições, autointerrupções, perda de linearidade, meandros, ou no caso de bilíngues, interferência de um idioma em outro. Psicólogos observaram que, quando a linguagem funciona desta forma imprevisível, ela pode revelar tanto sobre o estado psicológico da vítima quanto uma linguagem mais comum e direta.

Não é surpreendente que a literatura sobre experiências traumáticas utilize com frequência tais recursos linguísticos como técnica narrativa. É possível observar esse fenômeno, por exemplo, na obra de Hiromi Itō, uma importante poeta feminista que escreve com foco em vários aspectos da experiência das mulheres.

Itō nasceu no Japão e imigrou para a Califórnia nos anos 90 junto das duas filhas ainda pequenas, arrancadas de repente do próprio lar e arremessadas em um ambiente novo no qual não conseguiam se comunicar. Como resultado desse trauma, a segunda filha de Itō ficou sem falar por mais de um ano e, ao retomar o ato da fala, o discurso estava repleto de características linguísticas estranhas, o que surpreendeu Itō.

Em 2004 e 2005, Itō escreveu um longo poema narrativo, Wild Grass on the Riverbank (Kawara arekusa, em japonês), em que as experiências da filha da autora são recontadas em primeira pessoa. O livro, que dá guinadas repentinas para o surreal, é uma obra prima da literatura de migração, mas o que interessa a esta apresentação é o uso constante de recursos linguísticos por Itō através do poema, associados ao trauma, que demonstram o estado psicológico da jovem narradora imigrante.

Em 2015, publiquei a tradução desse poema, porém, durante o processo de tradução, passei muito tempo em cima de soluções para as caraterísticas pouco usuais da linguagem poética de Itō, sobretudo para as que refletiam o trauma psicológico da narradora.

O pesquisador da área de Estudos da Tradução Antoine Berman observou que tradutores naturalmente tendem a suavizar características linguísticas incomuns dos textos, apagando as características únicas da obra traduzida. Essas "deformações" não são intencionais, necessariamente, e com frequência acontecem sem que o tradutor perceba. Para ajudar tradutores a entenderem como uma tradução "deforma" o texto, Berman tenta catalogar os diferentes tipos de características que tendem a sofrer no processo de tradução. De frente à lista de Berman, percebe-se que muitas dessas características são similares àquelas que compõe a linguagem de vítimas de traumas.

Se as características linguísticas que aparecem na linguagem traumática são parecidas com as que apresentam dificuldades para tradutores, o que o tradutor deve fazer ao trabalhar em um texto sobre trauma? Esta apresentação discutirá os desafios específicos que o tradutor de poemas sobre trauma pode enfrentar, entre eles, desafios éticos e linguísticos. Para explorar essa questão complexa, tratarei da minha própria experiência e dos desafios ao traduzir Wild Grass on the Riverbank para o leitor em língua inglesa.

Biografia: Jeffrey Angles é poeta, tradutor e professor de literatura japonesa na Western Michigan University, nos Estados Unidos. A sua coletânea de contos próprios em língua japonesa recebeu o prêmio Yomiuri de literatura, uma honra singular concedida a poucos falantes não-nativos desde o surgimento do prêmio em 1949. Ele traduziu dezenas dos mais importantes autores e poetas japoneses da atualidade para o inglês. Ele mantém uma forte crença no papel do tradutor como ativista e focou em sua carreira na tradução de autores e autoras feministas, queer e engajados socialmente para o inglês. Entre suas inúmeras traduções premiadas e aclamadas pela crítica estão: Killing Kanoko: Selected Poems of Itō Hiromi (Action Books, 2009), Forest of Eyes: Selected Poems of Tada Chimako (University of California Press, 2010), Twelve Views from the Distance (University of Minnesota Press, 2012), de Takahashi Mutsuo, e Wild Grass on the Riverbank, de Itō Hiromi (Action Books, 2014). Sua tradução mais recente encontra-se na edição crítica e anotada do clássico modernista The Book of the Dead, de Orikuchi Shinobu (University Minnesota Press), de 2016. No momento ele está trabalhando em vários projetos de tradução, entre eles a primeira tradução ao inglês do romance Godzilla, de Kayama Shigeru, o mesmo autor de ficção científica que escreveu o roteiro para o famoso filme de 1954.