TERRITÓRIOS PERIFÉRICOS E RESISTÊNCIAS CRÍTICAS

MESA REDONDA

Rachel Esteves Lima - Mutirões literários e políticas culturais das margens

Resumo: Mais de 25 anos já se passaram desde a publicação póstuma de A universidade em ruínas, do professor de Literatura Comparada da Universidade de Montreal, Bill Readings. Nesse livro, o autor chamava a atenção para a falência da universidade moderna (um dos sustentáculos da ideia de Nação), que vinha sendo superada pela universidade de excelência, em tempos de integração global. Essa transformação se fazia muito visível também no Brasil, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, e, mesmo sob os governos petistas, ainda que o processo de privatização das instituições públicas de ensino superior tenha sido barrado, o projeto da universidade de excelência não foi deixado inteiramente de lado. E talvez não seja exagero concluir que algumas de suas iniciativas contribuíram ainda mais para a erosão do conceito de "cultura nacional", um dos pilares sobre os quais se sustentam o modelo universitário humboldtiano. Pode-se até mesmo dizer que as políticas de inclusão implementadas na universidade nos últimos anos contribuíram para evidenciar ainda mais o caráter elitista da noção homogênea de cultura anteriormente cristalizada e para, ao mesmo tempo, jogar por terra qualquer nostalgia de retorno à universidade tal como planejada a partir dos anos 1930. Não adepto de nenhuma postura saudosista, Readings nos convidava a habitar as ruínas da universidade, de forma responsável e aberta para a emergência de algo novo, que ainda não se podia vislumbrar. Considerando que vários intelectuais têm atendido a esse apelo, o trabalho a ser apresentado resulta de um esforço em traçar uma breve cartografia de algumas iniciativas que vêm sendo desenvolvidas na universidade pública, no campo da literatura, com vistas à construção de um rede solidária capaz de promover, de fato, uma intervenção na realidade na qual ela se insere. Tomaremos, como ponto de partida para discutirmos a interlocução entre a academia e os grupos "minoritários", o trabalho realizado por alguns pesquisadores que atuam no ensino superior da Bahia, cientes, todavia, de que qualquer mapeamento sempre se mostrará lacunar e que o que se propõe aqui é apenas uma pequena reflexão, interessada, sobretudo, em não abrir mão da tarefa de pensar nossa atuação em tempos de crise como a que estamos vivendo.

Minibiografia: Professora Titular de Literatura Brasileira na Universidade Federal da Bahia, com Pós-Doutorado na Universidade Paris XIII (2011) e na Universidade de Bolonha (2019), Doutorado em Estudos Literários/Literatura Comparada pela UFMG (1997), e Mestrado em Letras/Literatura Brasileira pela mesma universidade. Atua na linha de pesquisa Documentos da memória cultural, do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da UFBA, desenvolvendo pesquisas sobre as teorias críticas da Literatura Comparada, a crítica literária brasileira e latino-americana, os gêneros pertencentes ao espaço biográfico e a literatura brasileira contemporânea. Organizadora dos livros A Antropofagia na era da globalização (2016) e O espaço biográfico: perspectivas interdisciplinares (2016), ambos publicados pela EDUFBA, em formato e-book. Atualmente coordena o Núcleo de Estudos da Crítica e da Cultura Contemporânea e participa também do grupo de pesquisa ATLAS – Análises Transdisciplinares em Literatura, Arte e Sociedade. É pesquisadora do CNPq e atualmente desenvolve o projeto "Cultura e Política no Brasil ultracontemporâneo: um panorama da literatura e do cinema documentário em regime de urgência no Brasil pós-2013".

Amilton José Freire De Queiroz - Entre casas, canoas e bibliotecas periféricas: travessias por fronteiras em fricção

Resumo: A proposta desta exposição é pensar um comparatismo de fricção como estratégia de intervenção para mapear os diálogos, as tensões e as resistências das culturas periféricas na literatura contemporânea. Em proposições articuladas com as perspectivas de Benjamim Abdala Junior (2012), Zilá Bernd (2014), Eduardo Coutinho (2004), Eneida Souza (2006), José Luis Jobim (2012), Tania Carvalhal (2003), Vera Casa Nova (2008) e Elena Brugioni (2019), serão examinados os contos A casa ilhada (2006), Milton Hatoum, A casa marinha (2014), Mia Couto, A casa secreta (2005), Eduardo Agualusa e Biblioteca (2018), Walter Hugo Mãe. A hipótese a ser explorada consiste em que tais textos elaboram mapas do diálogo contrapontual entre imaginários, vidas e experiências em trânsito, abrindo espaço para discutir os ganhos epistêmicos sobre os comparatismos de fricção e seus desafios hoje. Para Ricardo Piglia, abordar literatura, cultura periférica e deslocamentos é observar "um pequeníssimo movimento para conseguir que alguém por ele possa dizer o ele quer dizer" (PIGLIA, 2001, p.2). Tal deslocamento estratégico para falar a partir da fronteira pode ser importante para suspender o automatismo, fabular possibilidades de vida e promover uma abertura para os comparatismos de/em fricção, como resistência ao esquecimento. Propomos, portanto, fazer uma breve leitura comparada entre a figuração de casas, canoas e bibliotecas como lugares a partir dos quais se realizam as travessias por fronteiras na literatura contemporânea.

Minibiografia: Graduado em Letras-Português pela Universidade Federal do Acre (2006). Mestre em Letras pela Universidade Federal do Acre (2009). Doutor em Letras/Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2015). Pós-doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (2020). Professor adjunto da Universidade Federal do Acre, Colégio de Aplicação. Professor do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Humanidades e Linguagens (PPEHL). Líder e pesquisador do Grupo Amazônico de Estudos da Linguagem (GAEL) e Grupo de Estudos de Educação, Cultura, Arte e Linguagem (GECAL). Membro do Conselho Editorial da Editora Stricto Senso. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Comparada, Teoria da Literatura, Estudos Pós-coloniais, Geografia do gênero, Ensino de Literatura, Formação de professores e Linguística Aplicada. Desenvolve atividades de ensino, pesquisa e extensão no âmbito dos Estudos Comparados das literaturas africana, latino-americana e brasileira: epistemologia, teoria, crítica e metodologia, com vistas a examinar os processos, agentes e mobilidades literárias e culturas na contemporaneidade, na interface entre Ensino Superior e Educação Básica no estado do Acre.

Jurema Oliveira - A ancestralidade e as narratologias modernas e contemporâneas

Resumo: O trabalho é resultado de pesquisa acerca da ancestralidade iniciada em 2015, subsidiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo – Fapes. No decorrer das análises das obras, detecta-se que ler as configurações da ancestralidade nas narrativas exige acessar outras áreas do conhecimento (Antropologia, História, Ciências Sociais, Filosofia), tendo em vista que o arcabouço teórico disponível na Teoria Literária não dá conta da dimensão da pesquisa. Ao longo dos estudos, identifica-se nas obras uma repetição constante de um símbolo filosófico-religioso de sustentação do enredo, o ancestre, que perpassa o corpus escolhido por meio da liguagem de base oral, artifício linguístico para respaldar valores, princípios não materializados no discurso escrito ou por meio da configuração de personagem com caracteristicas humanas ou não. A identificação desse elemento na base narratológica se mostra de diversas formas. A mais recorrente é aquela representada pelo personagem com características humanas. De acordo com Cândido e Outros em Personagem de ficção (1976), o enredo precisa do personagem para existir e à medida que esse adentra o espaço literário vive a vida que não teme a morte, já que na qualidade de ancestre transita entre dois planos o visível e invisível. Os espaços de fixação desse personagem são diversos. Ele se manisfesta em rios, montanhas, plantações e nas casas representação/ambientação das narrativas. O passado volta como quadro de costumes em que se valorizam os detalhes, as originalidades, a exceção à regra, as curiosidades que já não se encontram no presente. A obra de arte produz do ponto de vista transformacional a reflexão tão necessária à vida diária. Dentre os recursos necessários a identificação dessa marca ancestral, valoriza-se as narrativas cujos referenciais discursivos estão pautados na oralidade, pois a discursividade oriunda dessa forma de expresssão carrega a carga ancestral promovedora do diálogo pertinente ao mundo dos vivos e dos ancestrais. De acordo com Altuna, a palavra ocupa o primeiro lugar nas manifestações religiosas, artísticas e na vida social em geral, pois é praticamente a única forma de conservar e divulgar o patrimônio material e imaterial às gerações futuras. Um patrimônio excluído dos catálogos históricos que só respeita as fontes escritas como a única forma válida de conhecimento. No entanto, na atualidade contextos sociais como o Brasil viu nascer um movimento de valorização de experiências oriundas da ancestralidade e da afro-brasilidade decorrente do processo colonial. As obras literárias brasileiras de diversas épocas pontuam esses fenômenos como forma de resistência aos conhecimentos euro- centrados que se fazem presentes em todos os âmbitos da sociedade. O processo valorativo desses aspectos contribui para uma tomada de consciência do papel da literatura na formação do sujeito. Inicialmente, o ancestre tinha como espaço promissor no Brasil as casas de Candomblé e Umbanda, mas posteriormente adentra o cenário político-ideológico do processo de resistência do povo negro. Em se tratando de Brasil, os escritores escolhidos direta ou indiretamente compõem a série de autores cuja perspectiva literária plasticamente repousa sobre a figuração daqueles seres com uma imagem pautada no ancestre de matriz africana. O trabalho é resultado de pesquisa acerca da ancestralidade iniciada em 2015, subsidiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo – Fapes. No decorrer das análises das obras, detecta-se que ler as configurações da ancestralidade nas narrativas exige acessar outras áreas do conhecimento (Antropologia, História, Ciências Sociais, Filosofia), tendo em vista que o arcabouço teórico disponível na Teoria Literária não dá conta da dimensão da pesquisa. Ao longo dos estudos, identifica-se nas obras uma repetição constante de um símbolo filosófico-religioso de sustentação do enredo, o ancestre, que perpassa o corpus escolhido por meio da linguagem de base oral, artifício linguístico para respaldar valores, princípios não materializados no discurso escrito ou por meio da configuração de personagem com características humanas ou não. A identificação desse elemento na base narratológica se mostra de diversas formas. A mais recorrente é aquela representada pelo personagem com características humanas. De acordo com Cândido e Outros em Personagem de ficção (1976), o enredo precisa do personagem para existir e à medida que esse adentra o espaço literário vive a vida que não teme a morte, já que na qualidade de ancestre transita entre dois planos o visível e invisível. Os espaços de fixação desse personagem são diversos. Ele se manifesta em rios, montanhas, plantações e nas casas representação/ambientação das narrativas. O passado volta como quadro de costumes em que se valorizam os detalhes, as originalidades, a exceção à regra, as curiosidades que já não se encontram no presente. A obra de arte produz do ponto de vista transformacional a reflexão tão necessária à vida diária. Dentre os recursos necessários a identificação dessa marca ancestral, valoriza-se as narrativas cujos referenciais discursivos estão pautados na oralidade, pois a discursividade oriunda dessa forma de expressão carrega a carga ancestral promovedora do diálogo pertinente ao mundo dos vivos e dos ancestrais. De acordo com Altuna, a palavra ocupa o primeiro lugar nas manifestações religiosas, artísticas e na vida social em geral, pois é praticamente a única forma de conservar e divulgar o patrimônio material e imaterial às gerações futuras. Um patrimônio excluído dos catálogos históricos que só respeita as fontes escritas como a única forma válida de conhecimento. No entanto, na atualidade contextos sociais como o Brasil viu nascer um movimento de valorização de experiências oriundas da ancestralidade e da afro-brasilidade decorrente do processo colonial. As obras literárias brasileiras de diversas épocas pontuam esses fenômenos como forma de resistência aos conhecimentos euro- centrados que se fazem presentes em todos os âmbitos da sociedade. O processo valorativo desses aspectos contribui para uma tomada de consciência do papel da literatura na formação do sujeito. Inicialmente, o ancestre tinha como espaço promissor no Brasil as casas de Candomblé e Umbanda, mas posteriormente adentra o cenário político-ideológico do processo de resistência do povo negro. Em se tratando de Brasil, os escritores escolhidos direta ou indiretamente compõem a série de autores cuja perspectiva literária plasticamente repousa sobre a figuração daqueles seres com uma imagem pautada no ancestre de matriz africana.

Minibiografia: Jurema Oliveira possui Graduação em Licenciatura Plena pela Faculdade de Educação da universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ (1992), Bacharel em Letras - Português/Literaturas pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ (1990); Bacharel em Letras Português - Árabe pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1994); Mestrado em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ (1998); Doutorado em Letras pela Universidade Federal Fluminense-Uff (2005). Professora da Universidade Federal do espírito Santo-Ufes; Pesquisadora da Fundação de Amparo à Pesquisa do espírito Santo-Fapes. Autora dos Projetos: A angolanidade e a moçambicanidade em questão (2011/2 a 2014) do Edital Programa Primeiros Projetos/PPP; As marcas da ancestralidade e suas configurações em narrativas de autores africanos de língua portuguesa e brasileiros no edital Universal de (2015-2018); Ancestralidade, Pan-africanismo, Afro-brasilidade no edital Universal de 2018 em curso até 2021; Projeto aprovado no Edital NeabsDepirmdh-Governo Federal 02/2019. Bolsista Capixaba pela Fundação de Apoio à Pesquisa e Inovação do espírito Santo-Fapes. Autora dos seguintes livros: Violência e violação: uma leitura triangular do autoritarismo em três narrativas contemporâneas luso-afro-brasileiras (Luanda: UEA, 2007); O espaço do oprimido nas literaturas de língua portuguesa do século XX: Graciliano Ramos, Alves Redol e Castro Soromenho (Luanda: UEA, 2008); No limite entre a memória e a história: a poesia (Luanda: UEA, 2009). Literatura moderna e contemporânea (Curitiba: IESDE, 2010); No limite entre a memória e a história: a poesia (Vitória: Edufes, 2011); Africanidades e Brasilidades: Culturas e Territorialidades. (Org.) (Rio de Janeiro: Dialogarts, 2015); Africanidades e Brasilidades: Ensino, Pesquisa e Crítica (Org.) (Vitória: Edufes, 2015) e 2 ed. Edufes em 2020; Realismo-maravilhoso e animismo entre griots e djidius: narrativas e canções nos países de língua oficial portuguesa (Org.) (Rio de Janeiro: Dialogarts, 2015); The theme of urban violence in three lusophone novelists: António Lobo Antunes, Paulo Lins, Boaventura Cardoso (2017); Africanidades e brasilidades: Literaturas e Linguística (Org.) (Curitiba: Appris, 2018); Africanidades e brasilidades: Direitos Humanos e Políticas Públicas (2020). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, Portuguesa Contemporânea, Africanas de Língua Portuguesa, autora de artigos publicados em revistas científicas, atuando principalmente nos seguintes temas: história, memória, crítica literária, tradição oral e ancestralidade. Pós- Doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem (PNPD/Capes/UFRN). Avaliador Ad hoc da Fapes, Avaliador Ad hoc da Capes, Avaliador Ad hoc da Revista ABPN. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Africanidades e Brasilidades-Nafricab/Ufes; Coordenadora de Simpósio sobre a temática Estudos Africanos de Língua Portuguesa e Ancestralidade em narrativas africanas e da afro-brasilidade nos eventos da Abralic. Menção Honrosa no Prêmio Internacional Investigativo Agostinho Neto em Luanda-Angola (África) com o trabalho intitulado Agostinho Neto: o discurso engajado em 2018.