LITERATURA E ENSINO

MESA REDONDA

Ana Crelia Dias - Leituras de quem para quem? A complexidade nos endereçamentos e as implicações na formação de leitores

Resumo: Quais são os limites entre os textos infantis/ juvenis/ e os destinados a adultos? Em que ponto um texto deixa de ser do interesse de um nicho de um público e se dirige a outro? Seria possível pensar a formação de leitores a partir da concepção de uma literatura sem adjetivação indicativa de direcionamento de público leitor? A indicação de destinatário na literatura está longe de se configurar como território pacífico do ponto de vista de quem escreve, do mercado que edita e promove a circulação das obras e ainda no olhar de quem seleciona as leituras. Este texto tem por objetivo trazer algumas reflexões acerca do endereçamento prévio das obras, em cujas bases se constroem os estatutos (ainda que precários) das literaturas infantil e juvenil, e as possíveis transgressões a esses processos de destinação dos textos a públicos específicos. Para tanto, serão analisadas obras cujas zonas de endereçamento são fronteiriças, a fim de pensar os possíveis impactos dessas leituras em ambientes formais de escolarização.

Minibiografia: Ana Crelia Dias possui mestrado e doutorado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição em que atua desde 2005 como docente. Realizou estágio pós-doutoral na Universidade de São Paulo, entre 2017 e 2018, debruçando-se sobre a pesquisa Mulheres na formação de leitores: retratos conhecidos, ainda em andamento. É líder do grupo de pesquisa Literatura e educação literária, registrado no CNPq. Coordena o GT Literatura e Ensino, da ANPOLL.

Benedito Antunes – Ensino de literatura: a disciplina da liberdade

Resumo: O título desta intervenção é tomado de Fernando Savater (1947), filósofo espanhol que escreveu o livro O valor do educar (1991), no qual faz instigantes reflexões sobre a educação. Dentre elas, destaco uma que servirá de mote para o que vou apresentar: "Se a educação implica certa tirania, é uma tirania da qual só passando pela educação poderemos, em alguma medida, nos livrar mais tarde". Se a educação em geral proporciona a crianças e jovens a compreensão necessária para enfrentar as limitações e mesmo as injustiças impostas pela sociedade, a educação literária tem um mérito adicional por eleger como objeto de estudo uma produção artística, que não se reduz a um conteúdo programático, passível de ser objetivamente definido, sistematizado, transmitido e avaliado após o processo de assimilação como conhecimento adquirido. A arte literária, evidentemente, pode submeter-se a esse processo, e é por isso que consta dos currículos escolares, mas configura uma espécie de aporia ao combinar conhecimento com imaginação. Com efeito, a presença da literatura na sala de aula instaura certa tensão entre disciplina escolar e liberdade. Talvez por isso ela nem sempre encontre o lugar adequado na escola, levando muitos professores e teóricos a defenderem a leitura livre da obra literária, em que se oferecem obras para serem lidas, mas sem cobrança ou comentários da experiência estética. Trata-se de um equívoco que, em última instância, nega a própria necessidade de se ensinar literatura por meio de uma disciplina escolar. É preciso, assim, recuperar o próprio sentido do ensino de literatura e reconhecer que ele se insere no quadro da educação em geral. E educar é uma tarefa que exige definição de objetivos, de métodos e de resultados a serem alcançados. Como qualquer outra, a literatura é uma disciplina que exige esforço, trabalho, desenvolvimento de atividades às vezes penosas. Mas é justamente esse esforço que poderá libertar o aluno. São as implicações desse entendimento que pretendo abordar.

Minibiografia: Doutor em Letras pela Faculdade de Ciências e Letras – Unesp, Câmpus de Assis, mestre em Teoria Literária pela Unicamp, graduado em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, docente de Literatura Brasileira da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp, Câmpus de Assis. Foi Diretor-Presidente da Vunesp – Fundação para o Vestibular da Unesp –, é bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, nível 2, e integra o grupo de trabalho Literatura e Ensino da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll). Suas pesquisas concentram-se na literatura brasileira do século XX e no ensino de literatura, estudando o Modernismo, o Pré-Modernismo, o romance moderno e a formação do leitor literário. Publicou Juó Bananére: As cartas d'abax'o Pigues, pela Editora Unesp, em 1998, A literatura juvenil na escola, pela Editora Unesp Digital, em 2019, e A olho nu, pela Editora Appris, em 2020, e organizou, com Sandra Ferreira, 50 anos depois: estudos literários no Brasil contemporâneo, Editora Unesp, 2014.

Fabiane Verardi - A literatura no chão da escola: itinerários de pesquisas sobre a formação de professores leitores

Resumo: O trabalho objetiva apresentar, a partir do resultado de pesquisas do Grupo de Pesquisa, "Literatura e Ensino", coordenado por mim, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo. Me debruço sobre as pesquisas que abordam, apresentam e refletem sobre as práticas de leitura e o perfil do professor de língua portuguesa e literatu ra da região norte do Rio Grande do Sul. Assim, busco identificar concepções, trajetórias e modos de leitura destes docentes, examinando as relações entre tais práticas e as vivências de situações de leitura.

Minibiografia: Graduada em Letras pela Universidade de Passo Fundo, Mestre em Letras (Teoria Literária) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Doutora em Letras (Teoria Literária) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Pós-Doutorado pela Universidade de Coimbra. Atualmente é professora Titular III da Universidade de Passo Fundo, no curso de Letras, no Programa de Pós-Graduação em Letras e Coordenadora das Jornadas Literárias de Passo Fundo. Desenvolve projetos na linha de pesquisa de Leitura e Formação de Leitor, focalizando seus trabalhos na questão da leitura na escola, metodologias de ensino da literatura infantil e juvenil. É, também, líder do Grupo de Pesquisa CNPq: Sobre Ensino de Literatura.