HUMANIDADES: TECNOLOGIAS E LINGUAGENS

MESA REDONDA

Alckmar Luiz dos Santos - Uso de bancos de dados e bibliotecas digitais para a história literária

Resumo: Projeto nascido no NUPILL - Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Linguística e no LAPESD - Laboratório de Pesquisa em Sistemas Distribuídos, a Biblioteca Digital de Literaturas de Língua Portuguesa é o maior banco de dados de história literária de literaturas brasileira e portuguesa que existe, aberta a usuários de interesses bem variados, do leitor diletante ao pesquisador especialista. Além da consulta às obras digitalizadas, é possível acessar um catálogo com dados biobibliográficos dos autores brasileiros e de outros países lusófonos; também estão disponíveis documentos do acervo pessoal de alguns autores do Estado de Santa Catarina.Nosso propósito é apresentar e discutir um exemplo de utilização do banco de dados e da biblioteca digital para estudos de história literária, especificamente a produção poética brasileira entre 1870 e 1920.

Minibiografia: Alckmar Luiz dos Santos é natural de Silveiras, SP. Possui graduação em engenharia eletrônica, pela Universidade Estadual de Campinas (1983), mestrado em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (1989) e doutorado em Estudos Literários pela Université Paris VII (1993). Desde 1994, é professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e, a partir de 1995, coordenador do Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística (NUPILL, núcleo de pesquisa de excelência do CNPq, financiado pelo edital PRONEX entre 2008 e 2016). Foi pesquisador convidado na Université Paris 3 - Sorbonne Nouvelle (2000-2001) e na Universidad Complutense de Madrid (2009-2010). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira e Teoria Literária, atuando principalmente com teoria do texto, literatura e filosofia, hipertexto e texto digital, poesia. É também poeta, romancista e ensaísta. Autor dos livros "Leitura de nós" e "Dos desconcertos da vida filosoficamente considerada" (ensaio e poema digital respectivamente; Prêmio Transmídia - Instituto Itaú Cultural), "Rios Imprestáveis"; (poemas; Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira da Revista Cult); "Ao que minha vida veio..." (romance; Prêmio de romance Salim Miguel), "Dos desconcertos da vida filosoficamente considerada" (poemas; menção honrosa no Prêmio de Poesia Cruz e Souza), além de outros. Foi homenageado como pesquisador-destaque da UFSC em 2011. É atualmente professor-titular do Departamento de Línguas e Literaturas Vernáculas da Universidade Federal de Santa Catarina.

Alberto Pucheu - Uma filologia pedagógica de combate à violência

Resumo: A relação entre poesia e técnica coloca-se praticamente desde o começo do pensamento ocidental, lida, de modo geral, como uma relação de oposição. No Íon, de Platão, a ironia socrática recai exatamente na suposta capacidade técnica (e epistêmica) da rapsódia defendida pela personagem homônima do diálogo. Em uma abordagem mais sofisticada do respectivo texto, é percebido, entretanto, que Sócrates não quer defender que, em oposição à técnica, a poesia seja entusiasmo, mas que, mesmo que com técnica, a poesia, ao menos para ser boa, requer entusiasmo. Nesse sentido, havendo uma complementariedade entre técnica e entusiasmo, não haveria, obviamente, nenhuma oposição entre poesia e técnica. No Teeteto, há um termo habitualmente traduzido por "não-iniciados" ou por "sem cultura", mas, ao pé da letra, mostrando a relação implícita entre poesia e filosofia, ἄμουσοι (amousoi) os sem musas, os amusicais, os não-poéticos, são, para o filósofo, aqueles que acreditam poder agarrar tudo solidamente com as mãos, os que Teeteto, confirmando Sócrates, diz serem também σκληρούς (skleroús), os duros, os endurecidos, os cabeças-duras, os, poderíamos de alguma maneira hoje dizer, esclerosados. Como a privação da Musa em alguém é correlata ao ódio que essa pessoa tem da linguagem, esse que é sem musa passa a ser, na República, literalmente vinculado ao misólogo, ou seja, ser amusical e não-poético é odiar o lógos. Enquanto as pessoas musicais e poéticas se entregam a uma filologia que se confunde com um ser tomado pela Musa – ou ser possuído pela instância eclosiva da linguagem –, aquele que não se relaciona com a Musa, misólogo e amusical, não apreciando nenhum pensamento nem a linguagem em sua potencialidade, não participando de nenhuma busca, de nenhum caminho, de nenhuma conversação, de nenhum exercício musical ou poético, não tendo, assim, suas sensações depuradas, "não mais se serve do discurso [lógos] para persuadir; em tudo, chega a seus fins pela violência e selvageria, como um animal feroz, e vive no seio da ignorância e da grosseria, sem harmonia e sem graça". Sendo a coexistência da poesia e da filosofia (que, em Platão, também tem sua Musa e é a "mais alta música") a que possibilita uma educação de combate à violência daqueles que são misólogos, ela se estabelece enquanto uma filologia pedagógica política. A partir disso, tal filologia será pensada como um desguarnecimento das fronteiras entre as diversas disciplinas críticas e a poesia ou as artes, ou seja, como estando na fundamentação do que passou a ser chamado de Humanidades. Esse amor à linguagem parece ser o que se apropria de técnicas para realizar uma determinação pedagógica, ética e política que, indo além das técnicas, é mais necessária do que nunca em nossos dias no país em que vivemos.

Minibiografia: Professor de Teoria Literária da UFRJ, Alberto Pucheu publica livros de poemas e ensaios. Dentre os primeiros, A fronteira desguarnecida; poesia reunida 1993-2007, mais cotidiano que o cotidiano, Para quê poetas em tempos de terrorismos? e vidas rasteiras. Como ensaísta, publicou, entre outros, Pelo colorido, para além do cinzento; a literatura e seus entornos interventivos, Giorgio Agamben: poesia, filosofia, crítica, apoesia contemporânea, Que porra é essa - poesia? e Espantografias: entre poesia, filosofia e política.

Leila Lehnen - Afrofuturismo: descolonizando narrativas e plataformas (Digitais)

Resumo: Esta comunicação examina o ímpeto descolonial da presença digital de Fábio Kabral e sua interface com os romances do escritor; A Cientista Guerreira do Facão Furioso (2019) e O caçador cibernético da Rua 13. Kabral propõe quatro princípios centrais para as narrativas afrofuturistas: protagonistas negros, ficções especulativas negras, afro-centrismo e autoria negra (https: //fabiokabral.wordpress. com 26/08/2019). Tanto seus textos digitais (ficcionais e não ficcionais), que aparecem neste World Press Blogs, quanto suas narrativas impressas, seguem esses preceitos. A combinação do afro-centrismo e dos elementos especulativos que recorrem à mitologia iorubá introduzem o/a leitor/a do texto de Kabral a um imaginário descolonial já que os textos deste "desvincula(m) o conhecimento de uma matriz colonial de poder" (Mignolo 2011: xxvii). Esta comunicação examinará como os textos de Kabral propõem uma estética descolonial por meio de escritos ficcionais e não ficcionais em seu blog e sua produção impressa. Os textos decoloniais de Kabral interrogam o legado da escravidão no Brasil e sugerem empoderamento por meio de uma abordagem imaginativa a diferentes epistemes.

Minibiografia: Leila Lehnen é professora de literatura e cultura brasileira no departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, na Brown University (EUA). Sua pesquisa foca em questões de cidadania, direitos humanos e justiça social e ecocrítica na literatura brasileira e latino americana contemporânea. Seu livro, Citizenship and Crisis in Contemporary Brazilian Literature (Cidadania e crise na literatura brasileira contemporânea) examina a representação e a crítica do que James Holston definiu como a "cidadania diferenciada" na literatura brasileira contemporânea.