CULTURAS INDÍGENAS E POÉTICAS DA ALTERIDADE

MESA REDONDA

Edson Kayapó – Literatura indígena: vozes da ancestralidade

Resumo: A literatura de autoria indígena carrega consigo traços das ancestralidades desses povos. São vozes protagonistas das memórias históricas e cosmologias silenciadas pela sociedade brasileira, especialmente pelas instituições educacionais.

Minibiografia: Edson Kayapó é ativista dos movimentos ambientalista e indígena no Brasil. Docente na licenciatura intercultural indígena do Instituto Federal da Bahia (IFBA) e do programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais na Universidade Federal do Sul da Bahia (PPGER/UFSB). Graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Doutor em História da Educação pelo EHPS/PUC-SP e mestre em História Social pela PUC-SP. Fez História na UFMG e Pós-graduação em História e Historiografia da Amazônia na Universidade Federal do Amapá, onde foi professor de História da Amazônia. É membro da Comissão Assessora para a Inclusão Acadêmica e Participação dos Povos Indígenas da UNICAMP e do Parlamento Indígena do Brasil, pesquisador da temática indígena e amazônica. Escritor premiado pela UNESCO e pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil.

Rita Olivieri-Godet - Tópicos centrais da literatura ameríndia contemporânea

Resumo: Minha participação na mesa-redonda terá como objetivo destacar os principais eixos temáticos da produção literária ameríndia no Brasil, interrogando sua especificidade e contribuição no âmbito da produção da literatura brasileira: o que a literatura indígena contemporânea, escrita em português, traz de novo para o campo da literatura brasileira? Restrinjo-me a interrogar a produção escrita que resulta do processo de descentramento do texto literário nacional, coabitando com outras produções porta-vozes de grupos étnicos (literatura afro-descendente), periféricos (literatura marginal) ou de gênero. Diante do oceano de narrativas indígenas orais, complexas e plurais às quais pesquisadores, como Devair Fiorotti, Maria Inês de Almeida, entre outros, se dedicaram a recuperar e divulgar, pode parecer limitado o enfoque na escrita. No entanto, a diversidade de expressões literárias, a primazia da oralidade, as interseções entre oralidade e escrita, entre voz coletiva e individual, são questões que levo em consideração no meu trabalho. Não se ignora portanto o fato de que a literatura ameríndia de expressão escrita está intimamente ligada à tradição oral. Sendo assim, as relações entre oralidade e literatura escrita devem ser pensadas mais como um tecido contínuo do que como ruptura ou substituição de uma pela outra. Desse modo, sem circunscrever a literatura ameríndia à produção escrita, reconhece-se que esta exerce, indubitavelmente, uma função específica no âmbito do discursos sociais das sociedades nacionais, no caso, a brasileira, contribuindo para dar maior visibilidade às culturas dos povos indígenas que há milênios vêm produzindo literatura.

Em meio à multiplicidade de expressões literárias que abalam as estruturas de fundação simbólica da nação brasileira, pretendo ressaltar a contribuição singular da literatura indígena nesse movimento. Inserindo-se em um processo contemporâneo de transculturalidade, a literatura ameríndia revela-se como um lugar utópico de sobrevivência e de resistência, mas também de mediação, que propicia formas originais de expressão artística, mas que, no entanto, não renuncia a uma reapropriação memorial do território geocultural dos ancestrais.

Minibiografia: Rita Olivieri-Godet é Doutora em Teoria literária e literatura comparada pela USP, com pós-doutorado em literatura comparada na Université Paris 10 e professora titular de literatura brasileira da Université Rennes 2-França, promovida a membro senior do Institut Universitaire de France na seleção dos laureados de 2013. Membro da equipe ERIMIT-Equipe de Recherches Interlangues "Mémoires, Territoires et Identités", dirigiu durante vários anos o Departamento de Português da Université Rennes 2 tendo também assumido a co-direção do Mestrado Les Amériques e a direção-adjunta da Ecole Doctorale (2004-2006). Membro do GT "Relações literárias interamericanas" da ANPOLL, pesquisadora associada do PRINT-UFF-Letras, professora convidada da Université de Bordeaux, da UEFS-Bahia e da Université du Québec à Montréal (GIRA-UQAM). Seus trabalhos mais recentes estão voltados para questões identitárias na literatura contemporânea brasileira e para as relações literárias e culturais interamericanas a partir do estudo das representações dos ameríndios e de seus territórios na produção contemporânea do Brasil, Quebec e Argentina. Possui vários artigos e livros publicados na Europa, no Brasil e no Canadá dentre os quais se destacam:

Vozes de mulheres ameríndias nas literaturas brasileira e quebequense (Edições Makunaima, Rio de Janeiro, 2020, http://www.edicoesmakunaima.com.br/catalogo );

Ecrire l'espace des Amériques: représentations littéraires et voix de femmes amérindiennes (Peter Lang, NY, 2019);

A alteridade ameríndia na ficção contemporânea das Américas (Fino Traço, BH, 2013);

Viva o povo brasileiro: a ficção de uma nação plural (É Realizações, SP, 2014);

Cartographies littéraires du Brésil actuel : espaces, acteurs et mouvements sociaux. (org., Peter Lang, Bruxelas, 2016);

Géopoétique des confins (co-org. R. Bouvet, PUR, Rennes, 2018);

Espaces et littératures des Amériques : mutation, complémentarité, partage (co-org. Zilá Bernd e Patrick Imbert, PUL, Québec, 2018).

Maria Esther Maciel - Alteridades não-humanas na literatura contemporânea

Resumo: Em que medida as alteridades não humanas se inscrevem na literatura brasileira contemporânea? Como alguns escritores brasileiros têm lidado com as relações paradoxais entre humanidade e animalidade, bem como com os problemas (etno)ecológicos do nosso tempo? Pretende-se, a partir dessas questões, investigar a presença dos seres não humanos em obras de autores como Astrid Cabral, Olga Savary, Sérgio Medeiros e Josely Vianna Baptista, com incursões pontuais às zoopoéticas de Carlos Drummond de Andrade e Wilson Bueno. À luz de um referencial teórico transdisciplinar, que inclui pensadores como Ailton Krenak, Eduardo Viveiros de Castro Dominique Lestel e Donna Haraway, será abordado também o hibridismo cultural e textual que atravessa os trabalhos de alguns dos autores incluídos no repertório literário, de forma a mostrar como eles apresentam um caráter fronteiriço, com um forte viés transnacional, por estarem atravessados por elementos zoológicos e mitológicos, lendas indígenas, referências literárias diversas e diferentes espaços linguístico-geográficos.

Minibiografia: Escritora, pesquisadora do CNPq e professora titular de Literatura Comparada da UFMG, atua como professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Teoria e História Literária da UNICAMP desde 2019. Possui doutorado em Literatura Comparada pela UFMG e pós-doutorado em cinema pela Universidade de Londres. Suas publicações incluem, entre vários outros livros, A memória das coisas – ensaios de literatura, cinema e artes plásticas (2004), O livro dos nomes (2009), Animais escritos – um olhar sobre a zooliteratura contemporânea (2008), Literatura e animalidade (2016) e Pequena enciclopédia de seres comuns (2021). É idealizadora e diretora editorial da revista Olympio – literatura e arte.