CAMINHOS DA LITERATURA COMPARADA: ESTADO DA ARTE

MESA REDONDA

RESUMOS: Como um modo de produção de conhecimento sobre o fenômeno literário e suas inter-relações o comparatismo foi marcado por uma ousadia intelectual que revolucionou a tradicional divisão disciplinar ao promover um movimento contínuo de ultrapassagem dos limites que sistematizaram o saber literário em termos de subáreas nos estudos de literatura. A expansão da Literatura Comparada ao longo do século XX representou uma inovação ímpar não só no sentido de colocar em destaque as relações entre textos de literaturas provenientes de diferentes geografias, mas também no sentido de promover novos estudos das literaturas nacionais ao levantar questões-chave concernentes às relações entre centros e margens, identidade cultural/regional, produção literária e cânones literários, bem como as implicações político-culturais de processos de transferências por vias de identificações, confluências e diferenças. Em seus movimentos de reinvenção epistemológica, a literatura comparada colaborou, de forma decisiva, na descompartimentalização do saber literário via a incorporação de aportes teóricos provenientes de áreas das Ciências Humanas e Sociais bem como das Artes resgatando, desse modo, os estudos de literatura de sua insularidade institucional. Poderia se afirmar que a marca registrada da práxis comparatista é a sua indisciplina, em termos de seu movimento em direção ao outro: o outro texto, a outra literatura, a outra história, a outra cultura, a outra linguagem, o outro imaginário. Para tanto, entram em cena conceitos tais como hibridismo, heterogeneidade, margem, diferença, liminaridade e fronteira na produção de um conhecimento que além da intertextualidade, incorpora a interdisciplinaridade e a interculturalidade. A proposta desta mesa-redonda é colocar em destaque alguns dos caminhos do comparatismo atual.

A Professora Zulma Palermo, em seu texto intitulado "Glocalizaciones y descentramentos fronterizos", enfatiza a heterogeneidade cultural das sociedades e as formas diferenciadas com que essas se colocam no espaço das práticas comparatistas na região latino-americana, evocando o legado da Pátria Grande de José Marti em seu Nuestra America (1852). Argumenta ela que nesse momento particular de imposições decorrentes da globalização econômica, surge com força a necessidade de redefinir territorialidades, pertencimentos e particularidades. Nesse contexto, a professora Palermo coloca em foco a problemática do conceito de fronteira no cenário de migrações diversas que impõem atenção ao surgimento de novas formas culturais e literárias que se situam num "entre-lugar" (cf. Homi Bhabha) por apresentarem racionalidades, códigos e retóricas próprias. Ao preconizar o abandono da nomenclatura 'subalterno' para definir a relação dessa produção com a cultura central e dominante, a pesquisadora pontua a necessidade de um comparatismo contrastivo (cf. Ana Pizarro), decentrado e pluritópico (cf. Henrique Dussel) que leve ao reconhecimento da pluralidade da produção de códigos e linguagens no espaço de uma determinada região/país. Tal movimento, segundo ela, implica uma ultrapassagem do projeto histórico de uma cultura nacional una e totalizante.

Com o título de "Tendências atuais do comparatismo" o Professor Eduardo Coutinho argumenta que a Literatura Comparada sempre caminhou lado a lado às principais tendências do pensamento de seu tempo, presentes nas correntes críticas e teóricas de abordagem do fenômeno estético-literário. Nessa direção, pontua os dois grandes momentos do comparatismo em termos da Escola Francesa no século XIX, e da Escola Norte-Americana na primeira metade do século XX. Considera o professor Coutinho que a partir da segunda metade do século passado a pluralização das tendências do pensamento crítico-teórico levou a literatura comparada a acompanhar essa transformação, fato que ampliou significativamente o seu campo de atuação. Ao apresentar um recorte de tendências do comparatismo contemporâneo, o pesquisador estabelece um diálogo do comparatismo com algumas correntes que tiveram um papel relevante em processos de transculturação tais como a Desconstrução, os Estudos Culturais e Pós-Coloniais, bem como as tendências que se abrigam sob a chamada "Literatura-Mundo". No seu entendimento, a despeito das diferenças, é possível identificar nessas correntes um traço que tem se tornado marcante na literatura comparada e que, segundo ele, ainda que com cuidado, seja possível definir o referido traço como a busca de um novo humanismo.

Em "Por um comparatismo decolonial" a professora Rita Terezinha Schmidt parte de algumas colocações da comparatista Mary Louise Pratt em sua obra Olhos imperiais: escrita de viagem e trasnculturação, de 1992 (traduzido para o português em 1999) como moldura de sua fala. Segundo Pratt, em tempos de diásporas e exílios transnacionais em escala planetária, produzidos por um sem-fim de conflitos étnico-raciais, pela intolerância religiosa e pelos novos fundamentalismos, o exercício da cidadania é continuamente violado e a democracia é tomada de assalto por velhas formas de autoritarismo. À luz da pertinência contemporânea das colocações de Pratt torna-se impossível não reconhecer que em geografias de forte passado colonial como a América Latina, a democracia não raro assume formas de autoritarismo as quais reinstituem legados coloniais/ocidentais em termos de hierarquias de raça, classe, gênero e sexualidades que perpetuam marginalizações e exclusões, inclusive no campo literário. Considerando a descolonização do pensamento como um processo de desocidentalização associado à expansão da literatura comparada na América Latina, na África e na Ásia nas últimas duas décadas, a professora coloca em pauta a teoria decolonial e sua voltagem teórico-crítica a partir do pensamento de uma de suas pioneiras, a filósofa argentina Maria Lugones.

BIOGRAFIAS:

Zulma Palermo: Professora Emérita da Universidade Nacional de Salta (Argentina), Doutora HC da Universidade Nacional de Formosa (Argentina), dirige sua pesquisa a partir da crítica à cultura latino-americana, investigando a formação de imaginários nas culturas locais. Desenvolve seminários e oferece conferências de sua especialidade em diferentes universidades do país e do exterior e foi premiada com diversos prêmios por seu trabalho acadêmico.

Seus livros Escritos al margen , La región, el país. Estudios sobre poesía salteña actual, De historia, leyendas y ficciones, Hacia una historia literaria en el Noroeste Argentino, enfocam a produção literária. Os artigos publicados em diferentes revistas e livros coletivos estão mais definitivamente orientados para o campo das construções teóricas: "De nacionalismos y regionalismos o los avatares de las políticas culturales metropolitanas", "Los 'Estudios Culturales' bajo la lupa: la producción académica en América Latina", "Semiótica del vacío y de la espera",El sentido de la diferencia: pensar desde los márgenes andinos”, “Estudios culturales y epistemologías fronterizas en debate”, “Texto cultural y construcción de la identidad. Contribuciones a la interpretación de la ‘imaginación histórica’, Salta, S. XIX”. Últimos livros: Desde la otra orilla. Pensamiento crítico y políticas culturales en América Latina  y Cuerpo(s) de Mujer. Representación simbólica y crítica cultural, Las culturas cuentas, los objetos dicen…; Como coordenadora e / ou compiladora:: Colonialidad del poder: discursos y representaciones, Arte y estética en la encrucijada descolonial, Para una pedagogía decolonial y Aníbal Quijano; textos de fundación.

Rita Terezinha Schmidt: PhD pela Universidade de Pittsburgh (EUA), professora titular aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Atua no Programa de Pós-Graduação de Letras desde 1985, sendo que desde 2016 é professora convidada do referido Programa. É bolsista de produtividade do CNPq, com projetos na área de literatura comparada e foco na ficção de autoria feminina nas literaturas brasileira e latino-americana. Organizou reedições de obras (romance e poesia) de escritoras brasileiras do século XIX bem como seis coletâneas de ensaios de Literatura Comparada. Foi Vice-Presidente da ABRALIC (Associação Brasileira de Literatura Comparada, 2002-2004) e é Membro do Comitê Executivo da ICLA ( Associação Internacional de Literatura Comparada, 2019-2022). Além de livro, artigos em periódicos e capítulos em obras publicadas no país, tem capítulos em coletâneas no exterior: Episodes from a History of Undoing: The Heritage of Female Subversiveness (2012); The Cambridge History of Latin American Women´s Literature (2016); Tropical Gothic in Literature and Culture: The Americas (2016); Brazilian Literature as World Literature (2018); e Comparative Perspectives on the Rise of the Brazilian Novel (2020). Desenvolve pesquisas sobre corpo, trauma, poder, violência, gênero e sexualidade a partir da interface literatura, filosofia e direito e na perspectiva de teorias feministas contemporâneas.

Eduardo de Faria Coutinho: Professor Titular Emérito de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Pesquisador 1 A do CNPq. É Mestre em Literatura Comparada pela Univ. da Carolina do Norte, Chapel Hill (EUA), e Doutor (PhD) em Literatura Comparada pela Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA (1983). Além de sua atividade docente na UFRJ, tem sido Professor Visitante em diferentes universidades no Brasil e no exterior (La Habana, Cuba; Córdoba, Argentina; Bochum, Alemanha; Illinois-Urbana/Champaign, EUA). Foi Vice-Presidente da Oficina Literária Afrânio Coutinho (OLAC) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (ANPOLL), e membro do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. É membro fundador e Ex-Presidente da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), Ex-Vice-Presidente da Associação Internacional de Literatura Comparada (AILC/ICLA), membro do PEN Clube Internacional e Consultor Científico de diversas agências de fomento à Educação (CAPES, CNPq, FAPERJ, FUJB). Tem 30 livros publicados como autor e/ou organizador, e numerosos ensaios e artigos em jornais e periódicos especializados no Brasil e no exterior.

LIVROS:

The Process of Revitalization of the Language & Narrative Structure in the Fiction of João Guimarães Rosa & Julio Cortázar. Valencia (Espanha): Estudios Hispanófilos, 1980.

Guimarães Rosa.  Coleção "Fortuna Crítica". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.  (Organizador) 2a ed.: 1991.

A unidade diversa: ensaios sobre a nova literatura hispano-americana.  Rio de Janeiro: Anima, 1985.  (Organizador)

José Lins do Rego. Coleção "Fortuna Crítica". Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. (Org. em colaboração com Ângela Bezerra de Castro). 

The "Synthesis" Novel in Latin America: a Study on João Guimarães Rosa's Grande sertão: veredas. Chapel Hill, North Carolina Studies in Romance Languages & Literatures, 1991.

Em busca da terceira margem: ensaios sobre o Grande sertão: veredas. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.  

Literatura Comparada: textos fundadores. Rio de Janeiro, Rocco, 1994. (Org. em colaboração com Tania Franco Carvalhal). 2ª ed.: 2011. 

Cânones e contextos: 5o. Congresso ABRALIC - Anais. 3 vols. Rio de Janeiro, ABRALIC, 1997-98. (Organizador)

Sentido e função da Literatura Comparada na América Latina. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000.

Fronteiras imaginadas: cultura nacional/teoria internacional. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001.  (Organizador). 

Literatura Comparada na América Latina: ensaios. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003.  

Literatura Comparada en América Latina: ensayos. Cali, Colômbia: Universidad del Valle, 2003.  

Elogio da lucidez: a comparação literária em âmbito universal. Porto Alegre: Evangraf, 2004.

Empréstimo de ouro: cartas de Machado de Assis a Mário de Alencar. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2009. (Org. em colaboração com Teresa Cristina Meireles de Oliveira).

Discontinuities and Displacements: Studies in Comparative Literature. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (Organizador).

Crossings and Contaminations: Studies in Comparative Literature. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (Organizador). 

Identities in Process: Studies in Comparative Literature. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009 (Organizador).  

Discursos de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2011 (Org. em colaboração com Vera Lúcia Teixeira Kauss). 

O bazar global e o clube dos cavalheiros ingleses. Textos seletos de Homi Bhabha. Rio de Janeiro: Rocco, 2011 (Organizador).

Afrânio Coutinho. Coleção “Essencial”. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2011. 

Literatura Comparada: reflexões. São Paulo: Annablume, 2013.

Grande sertão: veredas. Travessias. São Paulo: É Realizações Editora, 2013. 

Afrânio Coutinho: textos reunidos. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2013.

Rompendo barreiras: ensaios de literatura brasileira e hispano-americana. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014. 

Angélica Soares: memória sem margens. Rio de Janeiro: 7Letras, 2015. (Org. em colaboração com Ângela M. Dias e Maximiliano Torres). 

Brazil. Santa Barbara, CA; Denver, CO: ABC-CLIO, 2016. (Org. Em col. com Luciano Tosta).

Raul Pompeia. Coleção “Fortuna Crítica”. Foz do Iguaçu: EDUNILA; Rio de Janeiro: CEAC/ UFRJ, 2016.

Literatura Comparada: reflexiones. Bucaramanga, Colômbia: Universidad Industrial de Santander, 2017. 

Brazilian Literature as World Literature. (Organizador). N. York: Bloomsbury, 2018. 

Comparative Literature as a Transcultural Discipline (Organizador). São Paulo: Annablume, 2018.